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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

O Estado é um inferno dos outros que nos pode queimar

Depois de, ontem à noite, ter dado uma aula introdutória em que falei da coisa política aos meus alunos (todos eles já adultos, do ensino recorrente nocturno), onde também lhes expliquei as eventuais causas de, nos nossos dias de preferível teledemocracia, já não haver Introdução à Política para este grupo de interessados, dou de caras com mais este postal do meu mestre JAM, onde também explica que:
(...) "É assim o homem comum dos tempos de decadência. Fecha-se sobre si mesmo, faz cálculo utilitário e procura o máximo de prazer com um mínimo de dor. Diz que a política é para os políticos, descrevendo-a como uma guerrazinha dos homenzinhos que andam lá pelas alturas. E assume o abstencionismo activo. O problema é deles, dos que brincam ao chicote acenourado, porque "L'État c'est lui". O Estado é um inferno dos outros que nos pode queimar." (...)

Esperando fazer com que os meus alunos com acesso à Net possam ganhar interesse por estes postais, espero que venham a compreender melhor, com a ajuda do mestre, o que este "inconveniente" Professor lhes anda a ensinar.

Tenho dito.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Apocalyptalismo

"Contra o fascismo e a guerra colonial! Abaixo o capitalismo!"
Vi, de uma assentada, o "Apocalypto" de Mel Gibson! Aquilo é mesmo selvagem, selvático e impróprio para a consciência civilizacional das mentes 'modernas', acomodadas ao fast food e ao pronto a consummir, por todo o lado (aliás nada de novo, Deus é o primeiro acto natural de globalização, pois "está em todo o lado e é imenso"!...).
No mesmo dia recebo mais um mail deste Pedrito do J Negócios, sobre a que obriga, politicamente, a ambição da já bolorenta selvajaria capitaleira, agora com sede in em Bruxelas, mais global que o aquecimento da Terra.
E eu que, noutros tempos que muitos ainda lembram, também gritei "abaixo o capitalismo", ainda não fazia ideia da massissa ingenuidade e, por isso talvez, também, da grande injustiça histórica que representava a contestação, se a tivermos em linha de comparação com o nosso comodismo e, até, com a nossa cobardia de hoje, perante os tais factos da ganância a que se reporta mais uma das tiradas deste "menino" terrível do JN:

"
O pesadelo Trichet
Pedro Santos Guerreiro

Não é apenas o Zeca e o Cajó que aprenderam quem é o senhor Trichet. Os operários da Sociedade Anónima que todos os dias visitamos na página 2 do Jornal de Negócios comentam assiduamente o que faz o presidente do Banco Central Europeu, falam sobre Euribor, “spreads” e volatilidade porque lhes toca no bolso.

Como eles próprios diziam há uns meses, os seus pesadelos já são povoados com lobos, são assombrados pelo senhor Trichet. O tal que com aquele ar de menino rabino manda na política monetária e cambial da Europa; que decide se as taxas de juro sobem ou descem. Há dois que sobem.

Os primeiros-ministros gostam do BCE para terem um bode expiatório quanto aos juros. Sobem? A culpa é de Trichet... Mas não gostam de não mandar na política monetária e cambial; de termos um euro tão forte que prejudique as empresas europeias nas exportações, ante uma economia americana montada num dólar competitivamente desvalorizado.

A ameaça de rebelião veio da França: primeiro a candidata Ségolène, agora o primeiro-ministro Sarkozy contestam a independência sem escrutínio do BCE. Numa carta ao Governo português, Trichet responde ao 8 com o 80: o BCE é tão independente que quer excluir-se da lista de instituições europeias, profilacticamente, para não correr sequer o risco de vir a ter tutela do Conselho Europeu.

Este mesmo presidente que dá gritos do Ipiranga decidiu ontem obrigar o Tozé, o Joca e todos os que têm créditos à habitação a aprender mais palavras. Como “injecção de liquidez” ou “subprime”. E assim Trichet mexeu-lhe no bolso e na Bolsa.

Está tudo explicado a páginas 16 e 17 da edição de hoje do Jornal de Negócios. Em três penadas: nos EUA, o mercado de crédito à habitação de maior risco de incumprimento (o “subprime”) está a colapsar, com muitos devedores a deixarem de pagar prestações; no sofisticado mercado americano, muitos bancos vendem esses créditos de alto risco a outras instituições e fundos (em titularizações); os fundos que investiram nessas dívidas estão a cair ou mesmo a falir; os riscos estavam portanto a ser mal medidos e os juros aumentaram; pela primeira vez em muitos anos, começou a faltar dinheiro (liquidez) para operações. O que fez ontem o BCE? Deitou um balde de água em todo este calor, garantindo a qualquer banco financiamento (injectou liquidez, acalmou mercados).

Os optimistas dizem que isto é um processo de ajustamento normal. As economias estão saudáveis e as empresas sólidas. Os pessimistas olham para o mercado de crédito à habitação americano e receiam queda parecida na Europa. Não é possível, porque o conceito de “subprime” só existe nos EUA e Reino Unido. E o malparado na Europa está relativamente baixo. Ainda.

Em Portugal, esse nível é baixo mas crescente. Os aflitos amontoam-se às portas da Deco, que não pode senão recomendar a renegociação de contratos, para baixar “spread”, o que é ajuizado, e alargar prazos, o que é uma ilusão: quanto mais tempo se deve, menos capital se amortiza ao mês, maior volume de juros se paga.

O Zeca e o Cajó não gostam do senhor Trichet. Mas por mais repelente que isto lhes soe, o senhor gosta deles. E dos filhos deles.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

O ministro à prova de leitores

Já agora, mais uma do Pedrito ...

Mas não sem antes recomendar este comentário às declarações referidas pelo Sr. Ministro em causa ...!


Ou então ... esta entrevista!

Pedro S. Guerreiro

"Augusto Santos Silva não teve coragem de fazer ontem a Viviane Reding aquilo que fez há uma semana e meia a Pinto Balsemão: ambos discordaram da intervenção do poder legislativo em matérias editoriais, mas enquanto aos alertas da comissária o ministro pediu palavra para responder; às críticas do patrão da Impresa chamou de falta de educação e mudou de assunto.
Chamar mal-educado a quem o critica é aliás um acto que define um ministro.


São três os diplomas que levaram Pinto Balsemão a acusar o Governo de “cerco” à liberdade de imprensa: lei da televisão, estatuto do jornalista e lei da concentração. Todos têm coisas más e boas. As boas não podem existir para compensar as más.


A lei da concentração limita as aquisições na comunicação social a partir de uma determinada quota de mercado, por, segundo o Governo, isso pôr em causa o pluralismo da informação. A Renascença, que tem a maior quota nas rádios, acusa o Governo de travar o crescimento dos grupos. Balsemão adita que as empresas portuguesas competem com grupos internacionais e não podem ser encolhidas na sua geografia. Ontem, a comissária pôs em causa a lógica matemática do Governo, dizendo que não há critérios para aferir a relação entre concentração e pluralismo. E, na sua opinião, uma coisa não anula a outra.


A lei da Televisão defende um inenarrável conceito de médias ponderadas, tendo as estações a obrigatoriedade de transmitir informação política proporcional à representatividade dos partidos. Aplicando esta lógica à imprensa económica, suponho que o Jornal de Negócios terá um dia que dar 15% do seu espaço noticioso ao BCP e 0,3% à Soares da Costa – os pesos destas empresas no índice bolsista PSI-20. Se isto não é interferência na linha editorial, não sei o que seja.


Já o estatuto do jornalista está aprovado no Parlamento e espera promulgação do Presidente da República, a quem centenas de jornalistas pedem veto, em abaixo-assinado (é aliás uma suprema ironia do destino, ver jornalistas pedir salvação a Cavaco). Os jornalistas devem falar pouco de si mesmos. E o ataque ao quadro normativo que os rege será sempre interpretável como corporativismo. Mas este estatuto é mau de mais para ser aceite. Tem medidas saloias e incompreensíveis, como a exigência de formação superior aos jornalistas. E é absolutamente anacrónico ao posicionar a questão dos direitos de autor nas diversas plataformas em que o trabalho do jornalista é difundido. Só quem não faz ideia de como funciona hoje uma redacção é que diz que isso é defender o jornalista. Convido o ministro Santos Silva a visitar a redacção do Jornal de Negócios, onde dezenas de jornalistas produzem todos os dias informação para um jornal, para Internet, para a TV, em vídeos, para a rádio, para telemóveis. Todos são autores, todos têm os direitos em dia.


Augusto Santos Silva não é cobarde – mesmo não gostando de ser criticado, tem dado a cara sempre que o invocam ou às suas leis. Mas tem uma visão retrógrada e conspirativa dos jornais. Suponho mesmo que não gosta dos jornalistas portugueses. O inverso também será verdadeiro: muitos jornalistas portugueses devem ter vergonha de ter este ministro.


Mais surpreendente que a ignorância e o impulso de domesticar jornalistas, o que constrange é a absoluta descrença na auto-regulação e na irrelevância dos leitores, telespectadores e ouvintes. Mas eis uma notícia: eles são infalíveis na avaliação dos media. São o nosso melhor regulador. E são à prova de ministro."

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Quando a abstenção vence, vence o quê?

Quanto não vale a pena ouvir = ler as pequenas (passo a imodéstia) lições de "Pedrito", daquela "escolita" JN: Eis mais uma deste

Pedro S. Guerreiro
Lisboa é uma cidade acelerada, Capital com ambições de cosmopolitismo mas ciclópica no seu centralismo; tem mais actividade política e económica que qualquer outra paragem portuguesa; é a mais rica e tributada das regiões; aí circulam 8,1 milhões de turistas por ano, com 12 milhões a aterrar na Portela; há meio milhão de automóveis em trânsito por dia e 235 milhões de passageiros nos autocarros públicos por ano.
Pois nesta cidade grande, à volta da qual gravitam 2,1 milhões de pessoas; onde, dessas, vivem 556 mil; onde votam 532 mil eleitores; onde há doze candidatos a uma Câmara Municipal aprisionada por gravíssimos problemas financeiros; nesta cidade foi ontem eleito um líder. Por cerca de 60 mil pessoas.

É um resultado miserável. Se fosse um referendo, não era vinculativo e nada decidia, por falta de representatividade. Que representatividade tem então o sufrágio deste fim-de-semana? E como é possível que haja quem grite "vitória"?

A vitória foi da abstenção. O que significa que derrotados estamos todos. Só uma cidade sem esperança volta tão nitidamente as costas às urnas.

A elevadíssima abstenção nas eleições de ontem em Lisboa terá várias explicações. Em dia de chuviscos, a praia nem foi uma delas, mas o mês de férias sim. O pouco ambicioso conteúdo e a extensão da campanha será outra razão. E o ambíguo significado que estes resultados eleitorais em Lisboa podem ter na avaliação do Governo não é esclarecedor. Tudo isto poderá ser mais ou menos analisado. E mesmo detectados os "responsáveis", começando pelos próprios candidatos e abrindo um parêntesis para os juízes do Tribunal Constitucional, que adiaram o sufrágio duas semanas para dar tempo para a recolha de assinaturas (quando podiam ter mantido a data de 1 de Julho e prolongado o tempo para a entrega das assinaturas).

Mas nada disto tapa o essencial. Uma abstenção tão elevada não pode se não ser entendida como uma prova de falta de crença nas pessoas e nos projectos a votos. De duas uma: ou os eleitores não se mobilizaram por desmotivação e isso é um sinal amarelo ao sistema; ou, semáforo encarnado, eles mobilizaram-se motivados por uma expressão espontânea e silenciosa de reprovação não ao sistema mas aos políticos que por lá andam.

Esses mesmos políticos franzirão agora graves sobrolhos de preocupação. Mas a coisa passa-lhes rapidamente. Pedir reflexão aos partidos sobre estes resultados é inútil. A tendência vem de longe e, tirando os rescaldos eleitorais, mais ninguém se lembra que, tirando a expressiva votação em Cavaco Silva (que foi eleito com o voto de 2,7 milhões de portugueses), os nossos deputados e muitos presidentes de câmaras foram eleitos por percentagens que escondem números relativamente baixos de votantes. Rui Rio, por exemplo, venceu as eleições à segunda maior cidade do País à frente de uma coligação que teve... 63 mil votos.

António Costa ganhou as eleições mas não ganhou uma cidade. A única vantagem que tem é que as expectativas são baixas - e é mais fácil surpreender quando se espera pouco do que cumprir grandes desígnios. Mas até lá, talvez se deva pensar em expandir os meios de votação à Internet. Mas sobretudo perceber que, como acontece na economia, quando a "procura" não compra um produto é porque a "oferta" não satisfaz as necessidades. O problema é sempre da oferta. Dos partidos. Dos políticos. Dos governantes. Das oposições. E da democracia.”

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Lições sobre este "Tempo Que Passa"

Veio-me à ideia a figura axiológica da humildade.

E, segundo creio tratar-se, até, de um conterrâneo vimarânico, não lhe encontrarei (não só por isso, mas também, entre ainda outras razões, pelo facto de lhe serem historicamente reconhecidos méritos antifascistas), grandes dificuldades em assumir a tal humildade positiva (a tal que não é, nunca, pobreza de espírito ou de estado de alma para ninguém), pois por certo terá sido esse um dos pilares da educação social que recebeu naquela sua arquétipa urbe natal.

E, porque eu também sei o que significa a fundacional vimaranidade, reconheço que, muitos mais que o Dr. Alberto Martins, tanto dentro como, e muito, fora do seu grupo partidário, deverão ler esta magnífica lição, apresentada pelo aqui meu mui citado mestre de Ciência Política JAM. E, mesmo pela sua amplitude, não me coíbo de a tanscrever aqui, no PUBLICISTA, na íntegra:

Recordações de democracia para os democratas que ainda têm a humildade de aprender lições de democracia

Assisti ao debate parlamentar sobre os sucessivos sinais de deriva pouco democrática, onde toda a oposição se uniu contra um PS que apenas declarou não receber lições de democracia de ninguém, como aqui previ com as letras todas. O discurso do PS foi proferido por Alberto Martins que nunca foi histórico de um partido a que aderiu, tarde, embora a boas horas. O do PSD por Zita Seabra, também chegada ao partido de Sá Carneiro ainda mais tarde e também a boas horas. O melhor discurso foi o da coragem de Manuel Alegre, o eterno poeta dissidente que, mais uma vez, praticou a liberdade de que continua a ser a voz, mais autêntica do que a dos ventríloquos e porta-vozes dos sistemas que perderam o sonho e a ideia de obra.


Valia a pena que o PS estudasse, com toda a humildade, algumas lições de democracia sobre o spoil system, o sistema dos troféus, correspondente ao sistema norte-americano de nomeação de novas equipas, depois da eleição de um presidente, um modelo instituído por Andrew Jackson no primeiro quartel do século XIX.

Max Weber definia-o como a atribuição de todos os postos da administração federal ao séquito do candidato presidencial vitorioso, salientando que, a partir de então, surgiu um novo esquema de partido, entendido como simples organização de caçadores de cargos, sem convicção alguma.

Com António Guterres, o spoil system passou a ser traduzido em português por jobs for the boys, antes de Durão Barroso o volver em boys for the jobs. E terá sido com base nesta experiência que Bailey considerou a política como um jogo onde os competidores actuam numa arena visando a conquista de troféus.


O que levou ao aparecimento, no modelo norte-americano, do boss, do empresário político capitalista que procura votos em benefício próprio, sem ter uma doutrina e sem professar qualquer espécie de princípios. Um político profissional típico que trata de atacar os outsiders que lhe podem ameaçar os futuros rendimentos, isto é o futuro poder.

A degenerescência em causa pode tornar-se numa rotina, a que até podemos dar o belo nome de flexissegurança, constituindo mais uma das novidades reformistas do socratismo, nascida dos nortenhos pioneirismos da DREN-Margarida Moreira e das reformas à moda do Minho do deputado Gonçalves, para não falarmos de outras voltas em Alcobaça, contra o blogue de Balbino Caldeira, com as consequentes caixas de esgoto daquela espiral de teorias policiescas da conspiração e dos seus irmãos-inimigos da perspectiva da cabala anti-situacionista. Veremos quem será depedido no final de um jogo que até pode ir de vitória em vitória até a uma derrota final que poderá ser mais encurtada no tempo.


Sou obrigado a recordar ao senhor deputado Alberto Martins parcelas de uma carta aberta que, para ele emiti, no começo do guterrismo: que "só pode haver uma democracia autêntica quando nela existir uma parcela de direita em dialéctica com uma parcela de esquerda, a tal base indispensável para o pluralismo que permite a alternância e garante o necessário controlo do poder.

Aliás, a existência de uma direita e de uma esquerda, enquanto posições relativas a um certo tempo e a um certo espaço, só são possíveis numa democracia pluralista e numa sociedade aberta, dado que, nas degenerescências da usurpação, do despotismo, da tirania, da ditadura e do totalitarismo, os usurpadores, os déspotas, os tiranos, os ditadores e os agentes do totalitarismo, venham de anteriores posições de direita ou de esquerda, assumem-se, precisamente, contra a existência das parcelas, das partes, das faccções ou do partidos, proclamando, quase sempre, que, depois deles, deixou de existir a direita e a esquerda. Todas as degenerescências antidemocráticas tendem, com efeito para a monocracia, vício que também costuma marcar os vanguardismos e os cesarimos, sempre satisfeitos com as votações dos 98% e dos 99% que, na maior parte dos casos, não são votações mas rituais litúrgicos de consagração do monolitismo.


Entre nós, o Doutor Salazar, que não veio da esquerda, que não era democrata, que proibiu os partidos e que nos governou, primeiro, em ditadura e, depois, em autoritarismo, pode ter sido genial, mas seria anacrónico considerarmos que a direita e a esquerda das nossas presentes circunstâncias estão condenadas a ser, respectivamente, salazaristas ou antisalazaristas.

O totalitarismo nazi era tão nacionalista quanto o jacobinismo esquerdista da Revolução Francesa e tão socialista quanto todos os socialismos. O totalitarismo fascista de Mussolini foi gerado por um antigo militante socialista, marcado pela memória messiânica do republicanismo maçónico de Mazzini. O totalitarismo comunista de Estaline e de Mao, esses sim, vieram mesmo da esquerda. Todos, contudo, se irmanaram na abolição da esquerda e da direita, proibindo, prendendo e assassinando os opositores. Entre todos eles, venha o diabo e escolha!


Perguntar a um direitista se ele denunciou o autoritarismo salazarista é tão insignificante quanto perguntar a um actual deputado socialista se ele denunciou, na altura certa, o estalinismo, o maoísmo ou o sovietismo vigente até 1989. O Dr. Mário Soares, que chegou a ter juvenis apoios ao estalinismo, foi um dos nossos melhores professores de democracia. Da mesma forma, só um vesgo de espírito pode negar a envergadura libertacionista de Sá Carneiro, apenas porque este foi deputado independente nas listas do partido único do regime da Constituição de 1933.

Contra o nazismo e o fascismo, ergueram-se muitos esquerdistas, mas seria injusto esquecermos que alguns dos mais eficazes opositores a essa barbárie quase demoníaca vieram da direita conservadora, à maneira de um tal Winston Churchill ou de um tal Charles de Gaulle, tal como eram da direita, e conservadores, os principais membros da resistência alemã a Adolfo Hitler, com destaque para o chamado círculo de Kreisau. Da mesma forma, houve muitos socialistas e homens de esquerda que tiveram a triste sina do colaboracionismo com o nazi-fascismo, como foi flagrante na França de Vichy, com Laval e outros mais que, depois, hão-se ser heróis da esquerda mais recente.


Aliás, em Portugal, talvez importe recordar que o líder do 28 de Maio, Gomes da Costa, era um antigo militante do partido radical e que alguns dos históricos opositores ao salazarismo eram tão direitistas quanto Paiva Couceiro e tão católicos quanto Lino Neto, para não falarmos das origens retintamente fascistas de Humberto Delgado e da marca direitistas de alguns dos mais distintos apoiantes da respectiva candidatura, onde passsaram monárquicos como Rolão Preto, Vieira de Almeida ou Luís de Almeida Braga, um pouco à imagem e semelhança daqueles miguelistas que se irmanaram com os setembristas na Maria da Fonte e na Patuleia, contra a degenerescência cabralista.

Ninguém pode esquecer a presença direitista nas revoltas da Mealhada e da Sé, e, nas próprias origens conspirativas do 25 de Abril, há uma ampla coalisão, onde não faltam oficiais monárquicos, conservadores e direitistas, reflectindo as razões que levaram os próprios Congressos Republicanos de Aveiro a terem passado a Congressos da Oposição Democrática, num movimento onde homens como Francisco Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Telles ou Henrique Barrilaro Ruas, não podem ser esquecidos.


O mais importante talvez não esteja nestas viagens retroactivas pelo Ancien Régime, mas antes na circunstância da reconstrução pós-revolucionária da democracia, desencadeada a partir do 25 de Novembro de 1975, ter sido obra tanto da esquerda como da direita. Se a partir de então retomámos as senda da democracia prometida em Abril de 1974, tal só foi possível porque a força de Ramalho Eanes, Jaime Neves e Melo Antunes foi mais forte que o vanguardismo da esquerda revolucionária, dos comunistas e dos otelistas político-militares, permitindo o respeito pelo voto livre de 25 de Abril de 1975 e pelos anseios manifestados pelos manifestantes da Alameda e das muitas outras alamedas dos católicos que, a partir de Aveiro e de Braga, geraram a primeira revolução de veludo da chamada terceira vaga da democracia, conforme Samuel P. Huntington, onde Mário Soares não foi Keresnki e Ramalho Eanes se assumiu como o anti-Totski e o anti-Lenine.


Como membro da tribo político-cultural de direita, como antigo militante e dirigente de um dos partidos nucleares do arco constitucional do actual regime democrático, gostaria de declarar a Vª Exª que esta democracia é também obra da minha tribo, desses sociais-democratas não marxistas, desses democratas-cristãos, desses liberais, desses conservadores e desses direitistas, entre os quais estão alguns honrados membros do actual governo, que, em Abril de 1975, votaram contra os comunistas e o esquerdismo vanguardista do PREC, que apoiaram Ramalho Eanes e que fundaram a AD, com o PSD, o CDS, o PPM e os antigos socialistas do grupo dos reformadores, onde, ao que parece, circulavam nomes como Medeiros Ferreira, António Barreto e Francisco Sousa Tavares, não esquecendo a adesão ao sá-carneirismo da poetista Natália Correia.

Isto é, muita gente da tribo político-cultural da direita chegou bem mais depressa à democracia prática que muitos proclamados democratas da democracia vanguardista que pensam que o antifascismo de há mais de vinte e cinco anos tem de ser superior à livre manifestação da vontade popular através do efectivo sufrágio universal, como o temos praticado desde 25 de Abril de 1975.


A democracia vive-se e pratica-se. Aprende-se, fazendo-a, sujando as mãos nos compromissos com as circunstâncias do Estado de Direito. Os que apoiaram as figuras simbólicas de Sá Carneiro, Amaro da Costa e Francisco Sousa Tavares, para falar apenas nos ausentes sempre presentes do regime que temos, não precisam de pedir certificados de democrata a outros democratas com outras histórias, que talvez não tenham votado PS, PPD, CDS ou PPM em 25 de Abril de 1975, nem Eanes nas primeiras presidenciais. O democratas da democracia pluralista não precisam de pedir certificados de democrata a certos antifascistas de antanho que, depois da democracia restaurada, tentaram impor um novo totalitarismo, prendendo e matando os que não tinham o perfil dos manuais terroristas do antifascismo, para não falarmos nos grandes latrocínios da chamada Reforma Agrária e das nacionalizações decretadas nas noites posteriores ao 11 de Março, quando algumas vozes do vanguardismo chegaram a propor a restauração da pena de morte que, em 1852 e 1867, foi abolida pela direita liberal, conservadora e monárquica da regeneração. Um assassino que seja antifascista ou anticomunista não deixa de ser assassino. Um ladrão que se diga democrata, não deixa de ser um ladrão.

Um antigo apoiante do salazarismo pode ser, hoje, tão democrata quanto um antigo apoiante do estalinismo ou do maoísmo. Já tivemos antigos ministros do Estado Novo como ministros e deputados do partido de Vª Exª, bem como antigos marxistas-leninistas, incluindo estalinistas e maoístas, em governos de direita, e ainda bem!

Aqui ao lado, em Espanha, foi o rei imposto por Franco que salvou a actual democracia espanhola e ninguém, por lá, duvida do fundacionismo democrático de antigos falangistas, como Dionisio Ridruejo, de antigos direitistas da CEDA ou do homem do aparelho franquista Adolfo Suárez. Ninguém em França duvida do socialismo de Miterrand, apesar do seu passado colaboracionista com Vichy ou dos seus juvenis elogios a Salazar. Os certificados de democrata medem-se pelos serviços prestados à democracia. Confundir defensores da democracia com simples antifascistas, pode ser confundir o trigo da seara democrática com muito joio de má memória. Basta recordar que muitas das vítimas do terrorismo antifascista são precisamente antifascistas e esquerdistas. Os mais recentes alvos humanos do terrorismo da ETA eram destacados socialistas e não empedernidos franquistas. Os primeiros ataques do PREC contra a liberdade em Portugal tiveram como alvo o jornal símbolo do antifascismo lusitano, A República, órgão do socialismo e da maçonaria, quando o novo antifascismo chamava fascista a Mário Soares.

O actual regime político português, que Vª Exª serve, se deve a Mário Soares o facto deste não ter repetido os vícios dos republicanos de antes do 28 de Maio, muito também deve à circunstância de Sá Carneiro e da Aliança Democrática, depois de Eanes e do 25 de Novembro, terem dado à democracia que vamos vivendo o apoio sociológico daquela direita que, felizmente, constitui cerca de metade do país. Sem esse apoio eleitoral nunca Vª Exª poderia ter sido deputado do PS. Sem essa resistência anticomunista nunca os ex-comunistas da Plataforma de Esquerda poderiam ascender a membros do actual governo e da actual bancada parlamentar da nova maioria, aceitando-se uma reconversão que, na maioria dos casos, aconteceu depois de Gorbatchov e da queda do muro de Berlim.

Quando pessoas como o senhor deputado Alberto Martins ingressam na classe política democrática, depois de muitas memórias, como o Maio de 68, algum vanguardismo neo-iluminista e certas ilusões otelistas, a democracia fica mais forte e mesmo os adversários da outra tribo agradecem poder praticar-se aquela essência da democracia que é o diálogo com o adversário, como assinalava Ortega y Gasset.

Gostaria que a tribo político-cultural da direita e a tribo político-cultural da esquerda caminhassem cada vez mais para o centro, isto é, que se opusessem entre si, mas firmando os lugares-comuns daqueles valores essenciais das coisas que todos devemos amar e sem as quais não é possível uma comunidade política, que é sempre uma comunidade de significações partilhadas. Toda a dissolução dessas coisas que se amam, como a pátria, a liberdade e a democracia, dessas ideias pelas quais vale a pena morrer, contribui para que a coisa pública se depublicize e se corrompa. E quando falha a res publica, falha a communio e falha o consensus juris. Isto é, não há democracia sem comunidade nem Estado de Direito, onde os nomes da igualdade e da justiça coincidem".

Etiquetas: alberto martins, bailey, democracia, jobs for the boys, socratismo, spoil system, weber

(PS: Para o meu filho Manuel, neste dia de hoje, que é seu aniversário, este presente em espírito! Um abraço do Pai, estejas onde estiveres, nessa Ilha de encantos celtas.)

domingo, 8 de julho de 2007

Sobre a "bizarria" dos esquemas mediocráticos

Então como é que o Poder político vai controlar os media? Ou estaremos perante mais uma figura utópica de que, num Estado de Direito (...?) Democrático (...???...), não há controle dos media? E se há, como se concretizará essa mediocracia discreta? Através de editais públicos?
Enfim, eis mais esta peça escrita por um dos articulistas do JNegócios, a tal "escola" ...
" Balsemão ataca Governo
Os media têm que “renunciar a esquemas bizarros de controlo pelo poder político”
Pinto Balsemão fez ontem um discurso bastante critico à intervenção do Governo e do ministro Augusto Santos Silva no sector dos media. Para o presidente da Impresa, os media têm que renunciar a “esquemas bizarros e antiquados de controlo pelo poder político”.
Nuno Carregueiro
nc@mediafin.pt

No jantar da Confederação Portuguesa de Meios para a Comunicação Social, que decorreu ontem à noite, Balsemão afirmou que "o que me preocupa é o facto de o Governo, a maioria parlamentar do PS e, em particular, o ministro responsável pela área da comunicação social não compreenderem - ou não quererem compreender - o que está em jogo".

O presidente da Impresa que os novos desenvolvimentos no sector dos media obriga a "modificar o conceito de regulação, a aligeirar a intervenção dos reguladores".

E para o sector dos media encontrar uma solução vencedora para enfrentar o novo cenário, "envolve abertura, visão estratégica, capacidade de trabalhar em conjunto, bem como compreensão pelos mecanismos libertadores da sociedade civil, entre os quais a auto-regulação e a consequente renúncia a esquemas bizarros e antiquados de controlo pelo poder político".

No seu discurso Pinto Balsemão acusa ministro da tutela dos media de criar novas leis para controlar os media, dizendo mesmo que "a fúria legislativa não pára".

"O Governo propõe e o Parlamento aprova regulamentações para todos os gostos, e controlos rígidos, que vão desde a formação do capital das empresas, à programação das televisões, a quem pode e não pode ser director de um jornal, aos estatutos editoriais, aos códigos de conduta jornalística, aos livros de estilo, e aos próprios conteúdos, constantemente monitorizados por uma Entidade Reguladora à qual as sucessivas leis concedem poderes acrescidos", refere.

"Longe vão os tempos do Plano Tecnológico e da lufada de ar fresco que ele parecia querer introduzir", acrescenta.

"Pelo contrário, é flagrante e constante a insistência governamental em proibir, travar, limitar, burocratizar, impedir a adaptação e o aproveitamento, pelas empresas e pelos profissionais, da revolução em curso, da inovação constante, em matéria de informação, de entretenimento, de criatividade, de distribuição de conteúdos, de direitos de autor, de publicidade, etc..", acusa, acrescentando que "peça a peça, o cerco vai-se completando".

E diz que o Governo não está preocupado com esta estratégia do cerco. "A competitividade de um sector tão crucial como o dos media não é minimamente importante. O que interessa é burocratizar, espartilhar, controlar, cortando cerce as aspirações de convergência multimédia, de crescimento, de internacionalização que qualquer empresa de media deve ter, num mundo em acelerada mutação, em especial as privadas que não vivem do dinheiro dos contribuintes", refere.

Acerca da criação da Entidade Reguladora para a Comunicações Social (ERC), Pinto Balsemão diz que "por este caminho, ainda chegaremos ao extremo de haver quem apresente previamente os conteúdos à ERC, com medo das coimas, prisões, etc"

"Se, afinal, a estratégia do cerco não for apenas uma aflitiva falta de visão, mas um opção ideológica ou, o que é pior, uma mera tentativa organizada de controlo dos media, a questão é efectivamente muito grave. Uma democracia não funciona, não existe sem meios de comunicação social livres, ou seja, não orientados, não vigiados, não controlados", acrescentou Balsemão.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Eu bem digo que este Jornal é uma grande Escola

Ter "bolinhas pretas" já foi sinónimo de prestígio! ... (?)
Bem me pareceu ter ouvido um sinal de estrondo quando, um dia destes, esperando por um Professor nos corredores de uma instituição de ensino superior, onde decorria uma reunião do Conselho Científico em que ele participava, alguém disse NÃO! E toda a Instituição ouviu aquele esfarrapar de porta! A quê? Porquê? Parece que agora, publicamente, alguém veio dizer algo sobre o assunto (a não ser os posts algo inconvenientes de meu mui citado mestre JAM).
Trata-se, então, de mais esta 'bicada' do Jornal de Negócios, pela pena dessa sua autora que é a Luisa Bessa:
"Bolas pretas nas universidades
Não é só a bolsa que está ao rubro. O ambiente também está quente nas universidades. Só não há grandes manifestações de rua porque os estudantes estão sem aulas e a braços com exames. O debate que está em curso sobre o Regime Jurídico para as Instituições do Ensino Superior, que ontem foi discutido na Assembleia da República, é do maior interesse para o País, pois está em questão o modelo de governo das instituições do ensino superior.

É o princípio do fim da Lei da Autonomia, que rege as universidades há quase 20 anos, e que se foi responsável pelo desenvolvimento do ensino superior em Portugal (basta ver que em 2005 se formaram 1.177 doutorados, mais do que os 770 de toda a década de 70 e mais de metade dos que saíram nos 80) também se transformou, nos últimos anos, em parte do problema.

Os estudantes criticam a proposta do Governo porque vão perder peso nos órgãos de gestão, assim como o corpo de funcionários. Mas a grande contestação vem mesmo dos reitores.

O que quer Mariano Gago que desagrada tanto a quem dirige as universidades? Há vários aspectos, como a mudança do processo de eleição do reitor, que passa a poder ser recrutado fora da universidade, mas o que tem originado a maior oposição é a possibilidade de algumas faculdades ou centros de investigação se transformarem em fundações de direito privado, autonomizando-se das universidades a que pertencem.

Os reitores temem o desmembramento das suas universidades, que podem ficar esvaziadas das unidades mais dinâmicas, com melhor qualidade científica e maior nível de receitas próprias, que são precisamente as que podem cumprir os requisitos exigidos pelo modelo fundacional. Mas o único argumento que parece razoável na sua argumentação é o risco de se criarem instituições sem massa crítica, num momento em que a tendência vai precisamente no sentido inverso.

Na essência, a proposta aponta no sentido certo: distinguir quem é diferente e estabelecer uma cultura de mérito que tanto falta no ensino português, como aponta o economista Luís Cabral, na entrevista que pode ler nesta edição do Jornal de Negócios.

Os reitores até podem ter razão na crítica à pressa de Mariano Gago em forçar a aprovação da lei e à sua falta de disponibilidade para envolver todos os agentes num modelo que nunca poderá ser completamente consensual, sob pena de não mudar nada. Mas toda a sua argumentação fica fragilizada perante um caso como o chumbo de Saldanha Sanches nas provas de agregação para professor Catedrático na Faculdade de Direito de Lisboa.

Se Saldanha Sanches tivesse sido chumbado, assumindo os membros do júri o seu sentido de voto, nada haveria a dizer. Divergências de opinião entre académicos fazem parte da vida e não pode haver progressão académica sem avaliação. O mesmo não se aplica ao recurso ao método cobarde das bolas pretas.

Esta pequena história é a demonstração de que a universidade precisa de mudar. A instituição que é o berço do conhecimento não pode ficar refém dos piores vícios da sociedade portuguesa e ser um obstáculo à inovação, como tem acontecido. Tudo o resto acaba por ser acessório.
Retirado do J. de Negócios

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Algumas espontâneas honestidades em dia de greve alegadamente geral!

Reparo nalgumas das notícias que me vão chegando à caixa de correio e noutras das parangonas da mediocracia destes 'brandos costumes'.

Duas delas me chamaram a atenção:
1. A juventude com ares de grande maturidade expressa com alguma pública coragem por este 'menino com coração de oiro' (ai se o SLB tivesse o dinheiro do Manchester FC!?):

«(...) "Sei o meu valor. No Manchester irei realizar o mesmo trabalho que desenvolvi no FC Porto e se possível ainda melhor, porque quero dar expressão ao sonho. Quero que tudo dê certo. Estou preparado para tudo. A motivação é muita. E depois, o facto de ir jogar na mesma equipa desse grande jogador que é o Cristiano Ronaldo, assim como o Rooney e tantos outros, e ser treinador por Alex Ferguson é algo que só conseguia imaginar e que agora vou poder concretizar. O que posso dizer? É um sonho do tamanho do Mundo", concluiu Anderson.»

2. A doutoral 'aula' de Economia Social de mais este "biqueiro" do Jornal de Negócios, que não me inibo nem me coíbo de aqui a transcrever:

"Os novos luditas
Leonel Moura

São cada vez mais frequentes os discursos contra as novas tecnologias. Não é novidade histórica pois sempre se reagiu à inovação. A mudança causa sempre perturbações e terrores. Acima de tudo naturalmente nos sectores mais conservadores e instalados mas por vezes também nas vanguardas culturais e políticas.

Basta pensar nos luditas, esse importante movimento social do século XIX que se bateu contra a introdução no sector dos têxteis da nova maquinaria criada pela revolução industrial. Além da argumentação política e reivindicativa os luditas dedicavam-se igualmente à destruição das máquinas que viam como ameaça ao seu modo de existência. E tinham alguma razão. Qualquer nova tecnologia representa invariavelmente o extermínio das tecnologias que lhe antecederam. Quem não se lembra ainda das "velhas" máquinas de escrever tornadas subitamente obsoletas com o aparecimento do computador? E quantas fábricas destas máquinas e suas componentes faliram criando instabilidade social e desemprego? Além dos benefícios, as inovações geram com frequência vastas crises sociais, já que o tempo de implementação das tecnologias é frequentemente mais veloz do que o tempo de adaptação dos homens a elas.

Portanto, que estes processos têm o seu lado negativo é uma evidência. Não se pode alterar irremediavelmente modos de vida e a própria percepção que temos das coisas e do mundo sem sofrer alguma dramáticas consequências. Mas é preciso distinguir a usual resistência ao novo, dos argumentos críticos inteligentes e sérios que em si mesmo ajudam à evolução.

Um novo tipo de ludismo prolifera, afectando tanto direita quanto esquerda, umas vezes por medo de liberdade, outros em pretensa defesa de direitos, costumes e memórias do que já não existe. Não há por exemplo dia que passe que não se ouça falar dos perigos da Internet, principalmente para as crianças, da denúncia dos jogos violentos, do Second Life, afinal uma evolução "natural" do virtual e do VRML, ou da dependência telemóvel dos adolescentes. Em particular a muita gente continua a meter medo a existência de um espaço de grande liberdade, como a Internet, onde cada um pode colocar as suas ideias, opiniões e também naturalmente fantasias e perversões. E neste último caso sempre é melhor exibi-las do que escondê-las, para que se conheçam e possam tratar social e clinicamente. Outros não vêem nos avanços tecnológicos mais do que as garras do capitalismo que a todos querem vender a moto, como escreveu Ignacio Ramonet e de passagem controlar consciências e destinos.

A outro nível, mais relevante, surgem os medos das máquinas e da inteligência artificial e ainda mais fortemente as questões éticas sobre a vida e a morte ou os perigos da manipulação genética com o reavivar desse sempre eterno projecto de eugenia. É aliás neste domínio que a controvérsia é maior e nem sempre a melhor, já que frequentemente contaminada por crenças, fantasmas e muita ignorância.

A evolução do humano não é obra exclusiva da natureza. Com a cultura e a capacidade de transmitir conhecimentos de geração em geração o humano é também um produto evolutivo de si próprio. Isso permitiu-lhe, por exemplo, adaptar-se a condições ambientais extremas para as quais a sua pele natural não está preparada. Mas hoje essa ampliação das capacidades herdadas, no fenótipo, o corpo e no genótipo, os genes, encontra-se em franca expansão e é objecto de poderosos meios de investimento e investigação. São as múltiplas próteses que se vão agarrando ao nosso corpo, as drogas que melhoram a performance, a engenharia vária que nos prolonga a vida já a rondar o centenário. E a própria inteligência que se acelera com a ajuda de engenhos por nós criados. Hoje um homem e o seu computador constituem juntos uma tremenda máquina sinergética de raciocínio e criatividade. Amanhã um homem estimulado e acompanhado por um robot inteligente fará coisas que por si só nunca seria capaz.

Os luditas de hoje atacam a Internet e temem todas as inovações, da genética à robótica. Têm alguma razão no sentido em que assistem impotentes a transformações que provocam instabilidade e insegurança geral. Mas mais uma vez falham o alvo, porque a evolução humana e tecnológica não podem parar e muito menos simplesmente rebentando dois ou três infelizes computadores."

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Heresia? Parece, mas ... não é!

Apenas mais uma daquele Sr. Pina

Não é, não, depois de mais uma edição do "Politilendo" em que se falou do ocultismo da Igreja! É tão só mais uma evocação de marcas (talvez apenas isso?) que nos modelam, eventualmente de forma irremediável, algumas das nossas capacidades fundamenais como ser humanos! Mas, a traduzir o resultado dos ganhos sociais que o conhecimento progressivo vai provocando (ou racionalizando a dinâmica cultural, para referir esta definição do Mischa Titiev 1), estamos perante uma autêntica revolução na "Revelação" da Fé!

Mais uma vez, a Igreja! E eu que também tenho reminiscências do meu 'céu', apreendido no catecismo da minha infância! Muito participativamente! Acólito e tudo! E depois? Depois foi Lisboa e o Liceu D. João de Castro! E a "musicologia da libertação"! E o MAEESL de 71 e 72! E Amesterdão, Krishna, Buda e o Corão! E depois sou Eu! Então?

"O Além mais "simplex"


A "simplexificação" chegou ao Além. A Igreja acaba de desactivar o limbo, morada das almas das crianças não baptizadas, mortas sem terem tido tempo de cometer pecado mortal nem de se redimirem da culpa de terem nascido. Aos 10 ou 11 anos, eu imaginava o limbo como morada também das almas dos animais (como podia eu admitir que a minha afectuosa gata "Gira" não tivesse alma e o meu professor de Matemática tivesse?) e, tendo-me alguém convencido de que a Igreja só teria concedido alma às mulheres a partir do Concílio de Trento (teriam então Santa Cecília, Santa Ágata ou Santa Genoveva, perguntava-me eu, sido santificadas sem possuírem alma?), que seria também esse o destino das suas "proto-almas", ou lá o que mulheres teriam até essa data no lugar da alma. O limbo dava-me um jeito enorme para arrumar as almas puras que escapavam às severas regras de acesso ao Paraíso que me ensinavam na catequese. Agora a Igreja concluiu que o limbo reflectia, afinal, "uma visão excessivamente restritiva da salvação" e decidiu extingui-lo e transferir administrativamente as almas excedentárias para o Paraíso. Mesmo sem ser teólogo, eu sempre soube, porém, que as almas das crianças e as dos animais, como diz o Corão, "estão reunidas junto do Senhor" (Corão, 6, 38)."

Retirado da "Última" do JN de 2 de Maio
(1) TITIEV, Mischa, Introdução à Antropologia Cultural, Fundação Calouste Gulbenkian, 5ª ed., Lisboa, 1985, pp. 163 e ss.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Vergonhas nacionais?

Ora digam lá se não estamos perante duas grandes vergonhas nacionais! E se não têm nada a ver uma com a outra! Não me admira que, assim, já tenha ouvido praguejar e mandar a democracia deste país das bananas à merda!
São mais duas tiradas de outros sítios, certamente já catalogados no index das maldições ou excomunhões! A julgar pela persistência das críticas, os respectivos autores ainda serão indexados como hereges do politicamente correcto!
Ao mesmo tempo que, segundo números da Comissão Europeia, o poder de compra dos trabalhadores portugueses registou, em 2006, a maior descida dos últimos 22 anos, a CMVM anunciou que, entre 2000 e 2005, os vencimentos dos administradores das empresas cotadas em bolsa duplicaram (e nas empresas do PSI 20 mais que triplicaram!). Isto é, enquanto pagam aos seus trabalhadores dos mais baixos salários da Europa a 25 (e todos os dias reclamam, sob a batuta do governador do Banco de Portugal, por "contenção salarial" e "flexibilidade"), esses administradores duplicam, ou mais que triplicam, os próprios vencimentos, vampirizando os accionistas e metendo ao bolso qualquer coisa como 23,9% (!) dos lucros das empresas. Recorde-se que o Estado é accionista maioritário ou de referência em muitas dessas empresas, como a GALP, a EDP, a AdP, a REN ou a PT, cujas administrações albergam "boys" e "girls" vindos directamente da política partidária (cada um atribuindo-se a si mesmo, em média, 3,5 milhões de euros por ano!). Se isto não é um ultraje, talvez os governos que elegemos (e o actual é, presumivelmente, socialista) nos possam explicar o que é um ultraje. O mais certo, porém, é que se calem e continuem a pedir "sacrifícios" aos portugueses. A que portugueses?»
Luísa Bessa
"De onde vem todo este dinheiro?" é a pergunta que perpassa, de modo quase obsessivo, o filme de Nani Moretti sobre Silvio Berlusconi. A pergunta fica no ar mas, a dada altura, o dinheiro cai, literalmente, sobre a cabeça do futuro primeiro-ministro italiano.

A imagem ocorre a propósito do comendador Joe Berardo, que partilha com Berlusconi alguns atributos. Um deles é a opacidade sobre a origem da sua fortuna. O outro é a atracção pelo negócio dos media, a que Berardo também sucumbiu mas que entretanto vendeu, com as habituais mais-valias. Num ponto não coincidem: enquanto Berlusconi se virou para a política, o comendador preferiu ser "mecenas" de arte moderna.

Berardo já passou por várias fases. Já comprou empresas, que entretanto passou a gerir, e depois vendeu. Foi o que fez nos jornais, por exemplo. Mais recentemente concentrou-se nos investimentos em bolsa, em algumas das "blue chips" nacionais, onde tem aplicados mais de 600 milhões de euros. Mas não perdeu o gosto pelas incursões hostis, que ele sabe que acabarão por ser dinheiro em caixa. Que o digam João Rendeiro, que o teve como sócio nas águas Frize, ou a família Guedes, que com ele convive agora numa sociedade "holding" de controle da Sogrape.

Ganhar dinheiro não é pecado. Pecado pode ser a forma como se ganha dinheiro. Ora como Joe Berardo – o homem que se veste sempre de preto sem que se saiba porquê, como consta na sua biografia na Wikipedia – só é discreto no vestuário, o seu comportamento dá muito nas vistas e chamou as atenções do "polícia" do mercado.

Que passou a estar atento ao ciclo das suas declarações de que está numa determinada empresa para ficar, para vender a seguir na primeira oportunidade. A questão é demonstrar se as declarações de Berardo representam uma manipulação do mercado, contribuindo objectivamente para fazer subir as cotações, de que vai tirar proveito mais tarde.

É matéria de difícil ou quase impossível prova, mas lá que existe um padrão nas intevenções do comendador, lá isso existe. E quando existem demasiadas coincidências, há razões para desconfiar.

O "modus operandi" de Joe Berardo pode não ter nada de ilegítimo. Não é crime ser especulador financeiro. E se Berardo usa a comunicação social para passar a sua mensagem, a comunicação social também o usa a ele para bater a concorrência, vender jornais ou tempo de antena.

A verdade é que o sucesso do comendador suscita invejas e o seu estilo predador deixa um rasto de inimigos. Como não nasceu em berço de ouro e cultiva um estilo controverso, Berardo é um alvo fácil de maledicência.

Também discutível é o veículo que utiliza para o investimento em bolsa. Ao fazê-lo através da sua fundação, reconhecida como instituição de solidariedade social, Berardo tem direito a um conjunto de benefícios fiscais, nomeadamente à isenção de impostos sobre mais-valias, condicionada à sua aplicação na própria fundação. Mas como não há ninguém que fiscalize a forma como os dinheiros são aplicados, a situação configura uma espécie de paraíso fiscal.Que o Governo – este e todos os outros que o antecederam, pelo menos desde António Guterres – pactue com esta situação, sem clarificar o regime legal das fundações, só não é motivo de escândalo porque já nada escandaliza neste país à beira mar plantado.»

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Kant tem de ser revisitado! "Pela Santa Liberdade"!

Depois de ler mais uma desabafante 'bicada' de mestre JAM, veio-me à ideia mais uma efeméride que Pedrito, 'el niño' terrível do Jornal de Negócios, evocou com mais uma das suas tiradas de mestria crítica.
É caso para revisitarmos o conceito kantiano de liberdade! Como o Homem poderia ter à sua frente infinitas oportunidades de ... construir a sua felicidade e não atrapalhar a dos outros! Será que nos manuais escolares não deveria desenvolver-se o aprofundamento das consciências dos nossos jovens para o consumerismo? E será que isso chega? Como deverá ser esse processo avaliado? Como os testes? De que tipo? Dentro de que objectivos específicos? Ou teremos uma melhoruia do sistema de ensino apenas a olhar para a qualificação profissional? Porque é que consumerismo (ou a educação para comportamentos de consumo racional e sustentável) não faz parte do discurso do Sr. Presidente da República?
"A revolta do consumidor

Pedro S. Guerreiro
psg@mediafin.pt


É proibido fumar em locais fechados. É proibido fazer publicidade a bebidas alcoólicas. É proibido conduzir velozmente. É proibido vender hambúrgueres hipercalóricos. É proibido fazer publicidade a chocolates. É proibido comprar diamantes africanos.

Está a imaginar um mundo assim? Ele existe. E hoje é o dia em que se celebram os habitantes desse mundo. Hoje é o Dia do Consumidor.

A proibição de fumo está vulgarizada e a ComissãoEuropeia já deu aval à prática de excluir fumadores nos recrutamentos em empresas. Em Espanha, uma ministra fundamentalista quer proibir a publicidade de bebidas alcoólicas em folhetos de supermercado, onde as garrafas devem passar a ficar trancadas à chave atrás de vitrinas.

A mesma ministra abriu guerra à Burger King e quer proibir a cadeia de vender o seu novo hambúrguer de 800 calorias. As velocidades máximas autorizadas nas cidades europeias têm vindo sucessivamente a baixar: 60 kms, 55 kms, 50 kms... O presidente da Masterfoods anunciou a retirada da publicidade dos chocolates Mars de todos os meios que tenham audiência junto de menores de 12 anos.

O filme "Blood Diamonds" gerou uma chuva de protestos da indústria diamantífera por mostrar diamantes com sangue de gente explorada por mercenários.

Todos estes exemplos foram dados há uma semana por José Luis Nueño, no Fórum anual da APED, no Estoril. Nueño, um académico-jurista-consultor espanhol, diz que esta paranóia proibicionista viola as liberdades civis mas instalou-se na Europa do cinismo e da impotência dos políticos. O resultado, diz, será a revolta dos consumidores, que têm o direito de comer comida que lhes faz mal desde que estejam informados disso. Mesmo que a maioria dos europeus se acomode, balindo como carneiros num rebanho. O resultado, prossegue, é uma legião de europeus contidos, infelizes na sua opção (?) de viver em lares monofamiliares e sem crianças. O europeu é um consumidor infeliz que busca experiências de pico, transgressões sociais de velocidade, desportos radicais e violências que por um fim-de-semana distraiam as frustrações individuais.

Esta é uma visão apocalíptica da nossa sociedade, que defende ao limite a liberdade individual. Do outro lado estão os que supõem que o indivíduo precisa de protecção das mensagens de marketing massivo e enganador das marcas de comida-lixo, das tabaqueiras, das destilarias.

O Dia do Consumidor é como quase todos os outros dias de qualquer coisa: serve para fingirmos que nos preocupamos. Hoje é um desses dias: para políticos, patrões, trabalhadores e desempregados fingirem que se preocupam com os consumidores. Mas, além de declarações de circunstância, é importante perceber que o consumidor está entalado entre uma indústria de produtores e distribuidores que quer vender abundâncias e uma indústria do politicamente correcto e socialmente puritana que exige proibições. E há negócio em ambas as indústrias.

O consumidor é hoje dissecado por hordas de cientistas que analisam tendências, padrões, fragilidades, moralismos.

As crianças mandam nos pais, as mulheres têm um poder crescente, os produtos orgânicos estão na moda, os veículos poluentes não, há um contra-movimento emergente, o anti-consumismo, e a Internet é um meio de extraordinária difusão.

Não é como "Fahrenheit 451", de Truffaut, o filme onde os livros eram proibidos. Mas estamos de facto entre liberdades infinitas e proibições sucessivas. E, claro, a hipoteca da casa."
(O destacado a vermelho é da autoria do Publicista).

domingo, 6 de maio de 2007

Mais uma do 'Pedrito' de ... Jornal de Negócios

Vejo-me novamente face a mais uma tirada que poderia muito bem constituir uma aula de comunicacionalogia (ou, mais axiologicamente, de deontologia comunicacional institucionalizada). Daquele Pedrito que já nos habituou ao seu "mau génio" ... aquilo deve ser de família, que ele parece mais um dos que, como eu, estão rotulados de inconveniente ...!
Ora vejam lá se entendem porque é que eu gosto de relançar aqui estas do tal "menino maravilha" (é-o para mim) do J Negócos:
«A ceia do Cardeal
Justificação oficial: foram "os contactos na alta finança e alta política" que levaram à nomeação de Pina Moura pela Prisa em Portugal. É preciso dizer mais?
É preciso dizer mais do que disse ontem o patrão de Pina Moura? Manuel Polanco foi cristalino: que não, que não é por ser do PS (nem pelos méritos enquanto gestor de "media" – ao menos pouparam-nos a essa hipocrisia) que Pina Moura vai ser presidente da Media Capital e da TVI. É pelo seu poder de lóbi.

Que "contactos na alta política" tem Joaquim Pina Moura que possam aprouver à Prisa? Basta olhar para o seu "curriculum vitae" e concluir o silogismo: no PS. Que por acaso é o partido que está no Governo, com uma maioria absoluta na Assembleia da República. Que por acaso é tão socialista como o partido espanhol com que a Prisa está alinhada. Que por acaso vai decidir o futuro dos "media" em Portugal, em aspectos fulcrais como o concurso da Televisão Digital Terrestre (TDT), que assenta como uma luva na necessidade da Media Capital viabilizar um elefante chamado RETI.

A reacção de repúdio peninsular pela contratação de Pina Moura (que só José Sócrates acha normal) não tem nada a ver com o rótulo de "pesetero" que se quis colar na farpela do ex-ministro da Economia quando aceitou ser presidente da Iberdrola, a quem tinha viabilizado parcerias em Portugal enquanto governante. E invocar a condição de "amigo dos espanhóis" é não só preconceituoso como menoriza a questão em causa: a Prisa olha para o seu Cardeal como Maquiavel olhava para o seu Príncipe – os fins justificam os meios. Pina Moura é o meio entre as ambições e o seu sucesso.

Os "media" não estão num sector qualquer. São jornalismo, são negócio e são poder. Em Portugal, há uma mudança empresarial acelerada em todos os grupos, que dentro de poucos anos estarão irreconhecíveis. Por causa da Televisão Digital Terrestre, por causa da guerra pelo controlo da PT Multimedia, por causa da própria OPA da Prisa sobre a Media Capital, por causa dos novos canais cabo, por causa das plataformas digitais...

É verdade, ademais, que em Espanha o sector dos "media" é muito diferente do de Portugal. Porque é muito melhor gerido. Mas também porque a independência editorial é um conceito muito mais relativo. Os jornais portugueses são meninos de coro ao pé dos seus congéneres espanhóis. Lá, como enaltece Pina Moura, há um alinhamento ideológico explícito. Basta ver, por exemplo, a recente guerra quase diária sobre as verdadeiras razões para o envolvimento espanhol na invasão do Iraque.

Essa guerra não é só entre o PP e o PSOE; é entre o "El Mundo" e o "El País". Mesmo na imprensa económica espanhola se reconhecem alinhamentos, sobretudo empresariais.

Pina Moura diz que todos os jornais são alinhados, só que os espanhóis são mais transparentes e os portugueses sonsos. Este é um bom sinal sobre como actuará este gestor de "media". Mas Pina Moura está enganado. O Jornal de Negócios, por exemplo, tem um alinhamento claro, disponível no seu "site". Chama-se Estatuto Editorial. E por mais que custe perceber a quem vem da política, esse alinhamento não é partidário. É pela liberdade dos mercados sobre os interesses de grupos organizados, o comércio sobre qualquer proteccionismo. E pela igualdade nas condições de acesso a mercados e a negócios, acima portanto da "alta política". Ou da baixa...

Em breve saberemos se estes alertas são teorias de conspiração ou complexos de perseguição. Veremos quem ganhará o concurso para a TDT. Ou como termina a redistribuição de poderes com a PT Multimedia e os novos canais cabo. Saberemos então perfeitamente para que quer Manuel Polanco os "contactos na alta política" de Pina Moura: para ganhar.»

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Este não é o "bailinho da Madeira"

Ainda a confirmar que as afirmações insinuosas, ofensivas e atentadoras à integridade do Estado (a gravidade está na origem de onde vêm), merecem toda a atenção mediática (fora do âmbito eleitoral, claro está), vem mais esta de um dos meus 'publicistas' preferidos de hoje, mesmo que nem sempre esteja do lado das suas opiniões. Mas isso é ... secundário! Ou, se preferirmos, democraticamente primário!

"Lavar as mãos

Quando anunciou as eleições na Madeira, o presidente da República alertou Jardim que o Governo Regional ficava "limitado à prática de actos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos da região", apelando (porque já sabia o que a casa gasta) a que a campanha decorresse com "serenidade e elevação". Jardim, como seria de esperar, ignorou tudo isso. "Actos estritamente necessários"? Está bem abelha Jardim faz inaugurações e re-inaugurações à média de duas por dia, usa sem pejo meios do Governo na campanha, fala (na verdade grita) nos comícios como governante e no governo como candidato, e tudo o mais de que os jornais têm dado amplamente conta. "Serenidade e elevação"? Jardim responde com a "elevação" habitual: agressões, ameaças, arruaças e insultos a tudo e todos (o mínimo que os adversários são é "traidores", "fascistas", "pides", "Hitler", "bandalhos", "bandidos"). A situação chegou a tal ponto que a Oposição pediu a intervenção do presidente. E o que fez Cavaco? Lavou as mãos. A Democracia (pois é a Democracia que está em causa na Madeira) que se amanhe e vá ter com os "órgãos competentes". Cavaco devia saber, da memória que ficou de um certo governador da Judeia, que não basta lavar as mãos para as ter limpas."

Retirado da "Última" do JN de Hoje

terça-feira, 24 de abril de 2007

A Deus o que é de Deus, ao povo o que é do Estado!

Por que será que esta notícia me preocupa? Pela fuga dos médicos que procuram melhores sistemas de valorização dos serviços que prestam? No actual mercado de factores, ninguém poderá duvidar ou, sequer, tecer qualquer juízo de valor que confronte tais atitudes com as respectivas consciências morais.
O que socialmente está aqui em causa não são, sequer, as matrizes deontológicas (será necessário evocar o juramento de Hipócrates) que regem as disciplinas dos profissionais de qualquer serviço nacional. O indecente da questão é a fuga ao dever de retribuição dos que, durante anos, tiveram como fundo financiador da sua formação académico-profissional as contribuições fiscais daqueles a quem agora só querem atender em privado, podendo suportar, suplementarmente, os custos dessas deslocações.
Este pode ser, finalmente, o quadro probatório das intenções sociais da governação vigente: se realmente se mantiver esta tendência ou, mesmo, nada se fizer para a reverter, então podemos dizer adeus ao Estado Social de Direito. Ou, até, adeus Portugal.

"Centenas de médicos pedem licenças sem vencimento
24.04.2007 - 08h14 Catarina Gomes

Isabel Neto, médica que foi durante anos a mais fervorosa defensora dos cuidados paliativos, diz que deixar para trás a unidade da especialidade do Centro de Saúde de Odivelas (Loures) "foi uma decisão difícil e ponderada". A propósito da sua saída do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, José Roquette, eminente cirurgião cardiotorácico, responde que "as pessoas são livres de fazer as suas opções".

Os dois deixaram o sistema público de saúde inaugurando na semana passada novas tarefas no Hospital da Luz (privado), em Lisboa. Fazem parte de um grupo de centenas de médicos que fizeram a sua carreira no Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas agora optaram pelo sector privado.
Segundo números do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) de 2006 e 2007, foram entre 300 e 500 os médicos que pediram licença sem vencimento de longa duração (pode ir até dez anos) ou exoneração da função pública, um número que era residual em anos anteriores.
Muitos foram trabalhar para o sector privado em exclusivo, algo que quase não acontecia, explica o dirigente do SIM, Carlos Arroz. Houve também 400 médicos que se reformaram no ano passado, um número dentro do normal, desconhecendo-se quantos terão ido para o sector privado, nota o sindicalista.
O modelo da saúde privada está a mudar. Durante anos funcionou com as sobras dos horários dos médicos do público, que trabalhavam de manhã no hospital e à tarde em clínicas. A tendência é hoje para a criação de quadros próprios de médicos e enfermeiros, comenta Téofilo Leite, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada. Roquette, director clínico do Hospital da Luz, diz que dos cerca de 200 médicos que trabalham na unidade, 120 estão em exclusivo. A maior parte tem mais de 55 anos e pediu licença sem vencimento, estava à beira da reforma ou já estava reformada, explica.
Os recrutados em exclusividade não são novatos. Pelo contrário, "vamos buscar cabeças de cartaz", pelo seu "know-how, prestígio", explica Jorge Mineiro, director clínico do Hospital CUF Descobertas (Grupo Mello Saúde), ortopedista que deixou o Hospital de Santa Maria este ano. Mais de metade dos clínicos da unidade estão em exclusivo (são cerca de 60 em 120).
"Pesca à linha" preocupa
Até ao Verão nasce outro gigante da saúde em Lisboa: o Hospital dos Lusíadas, do grupo Hospitais Privados de Portugal. A fase de recrutamento está a decorrer e precisam de cerca de 200 médicos, alguns em exclusividade, revela o presidente do grupo, Luís Vasconcelos. O responsável adianta que escolhem ter quadros próprios em áreas estratégicas ou em equipas que exigem continuidade de assistência, como é o caso dos cuidados intensivos. Vão buscá-los ao sistema público. Mas Luís Vasconcelos afirma que não são os ordenados que atraem médicos com carreira firmada. É a falta de capacidade de atracção do sistema público. A média de idades dos clínicos anda nos 45 a 50 anos e "têm poucas perspectivas de progressão na carreira no [sector] público. Sentem-se pouco motivados a continuar".
É essa também a opinião do bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes: "É inexorável o abandono dos médicos. É o resultado da falta de investimento". Quem pensa que estas unidades "roubam médicos à função pública" está a ver o quadro ao contrário, "são as más condições da função pública que fazem as pessoas abandonar o SNS", comenta.
Com a abertura de dois grandes hospitais privados em tão pouco tempo, alguns hospitais ressentiram-se, mas não se está a falar de debandada geral. Existem 24 mil médicos no SNS e o SIM fala de até 500 médicos com licenças sem vencimento e pedidos de exoneração.
José Miguel Boquinhas, presidente do conselho de administração Centro hospitalar de Lisboa Ocidental (que junta o Egas Moniz, o Santa Cruz e o São Francisco Xavier) fala de "saídas pontuais": oito médicos pediram recentemente licença sem vencimento para ir para o privado, em 800.
O presidente do Hospital Geral de Santo António (Porto), Sollari Allegro, diz que nos últimos dois anos saíram 12 oftalmologistas para o privado (um terço do serviço). Não se trata tanto da "quantidade", mas da "qualidade". "A pesca à linha dos melhores médicos e enfermeiros pode provocar alguma pressão sobre os serviços públicos", nota Manuel Delgado, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. "Não é fácil substituir profissionais de elevada craveira". Mas a separação entre médicos do privado e do público é um bom sinal, defende. "O facto de as pessoas trabalharem ao mesmo tempo nos dois sistemas não é bom para a eficiência [do SNS]"."

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Ciência, Religião, Política, Moral e ... Liberdade!

Entre purgas, com remissão ou não para o purgatório, e o charme intelectual dos pretensos neo-inquisidores dos brandos costumes lusitanos, já com assento parlamentar promissor de umas quantas tristezas mais ou menos institucionalizadas pela dita, vejo-me e revejo-me mesmo nas travessuras de alguns mentores meus que, perante os actuais cenários sócio-activadores das vontades cidadãs (que o mesmo é dizer os pregadores que movimentam os espíritos), se estatelam em conclusões que me fazem lembrar o dilema weberiano do "político e o cientista".
Mesmo para alguns doutos pensamentos, para quem, frequentemente, a razão maior não tem que se submeter à maioria das razões, vejo alguma emoção no toque que emprestam à razão que quer dominar, com coincidência ou não, os interessados na razão das coisas! Quer dizer, no meio das razões interessantes que a cada um pode assistir, não nos deixemos levar pelos "mecanismos de formação da opinião pública", quando questões fundamentais para a vida em sociedade como é a da IVG estão na 'mesa de discussão' pública. Em última instância, não nos deixemos 'amarrar' pelos dogmas de alguns pretensos anti-dogmáticos da democracia 'totalizante' (daquele modelo que diz que 'quem não pensa como nós não é democrático'), que ao esconder a cobardia com que enfrentam os opositores nas pontas ideológicas dos partidos que os pariram apenas prestam um mau serviço à liberdade!E não me digam que têm consciência, pois dessa estão muitas asneiras a impregnar o Mundo!
Por estas e por outras, aceito aqui, no Refúgio, mais uma deste "profeta":
"A preto e branco

Rui Rio terá muitos defeitos, mas não o da incoerência, e admiro-o por isso. Excepto quando a coerência se confunde com obstinação cega e dificuldade em ver as razões (também) dos outros. Rui Rio votou em 1998 a lei de despenalização do aborto e defendeu-a publicamente. A crédito da coerência, parecerá, pois, normal que vote agora de novo "sim". Também eu, que não defendo o aborto (e quem o defende, a não ser as patéticas militantes do "na minha barriga mando eu", "slogan" que um filósofo da ética como Peter Singer classifica de "lógica do negreiro"?), votarei "sim", pois o que está em causa é continuar ou não, em certas condições, a meter na cadeia as mulheres que interrompem a gravidez. Esta é uma questão de ética da responsabilidade e não uma questão metafísica ou religiosa, ou sequer científica, e a pior resposta que pode ter é a jurídico-penal. O deputado do BE Teixeira Lopes vê, porém, o mundo a preto e branco. Para Teixeira Lopes, o mundo divide-se em "bons" e "maus", e a participação de Rui Rio numa sessão do "sim" servir-lhe-ia para "recuperar a imagem junto de um certo eleitorado". Ora, se o "sim" pertence ao BE, eu passo, pois a última coisa que quero é que o meu voto no referendo (e "no meu voto mando eu") vá parar a um partido."
Retirada da "Última" do JNotícias, de A. M. Pina

sábado, 6 de janeiro de 2007

Enforcamentos democráticos ... mas onde é que eu já ouvi isto?(...)

Das últimas que têm chegado à Ilha sobre a unilateralidade da política norte-americana actual, esta parece-me a que melhor sintetiza a opinião pública mundial sobre a democracia virtual que vivemos (por um dos colunistas que considero um "profeta do contra-situacionismo"):
"Como se escreve a História
Depois da condenação à morte de Saddam Hussein no final de uma farsa judicial denunciada por associações de direitos humanos de todo o mundo e pela própria Alta-Comissária da ONU Louise Arbour, e depois do seu degradante enforcamento, o governo iraquiano decidiu agora adiar "por alguns dias" o novo e "democrático" (Bush dixit) espectáculo que anunciara para ontem o enforcamento do meio-irmão de Saddam, Barzan Al-Tikriti e de Awad Al-Bandar, ex-presidente do Tribunal Revolucionário, também eles acusados de tortura e assassínio.
Ironicamente, no mesmo dia do enforcamento de Saddam, foi divulgado um relatório do FBI sobre a prática sistemática da tortura em Guantánamo. Quem tiver curiosidade mórbida e estômago suficientes pode conhecer em http://foia.fbi.guantanamo/detainees.pdf pormenores dos tratamentos a que têm sido, às ordens de Bush, Cheney e Rumsfeld, sujeitas centenas de pessoas raptadas em vários países do mundo e levadas clandestinamente para aquela base americana. E, se além de curiosidade e estômago, tiver uma réstia de senso moral há-de perguntar-se por que motivo não são também Bush, Cheney e Rumsfeld julgados e, pelo contrário, são os juízes. E terá aprendido algumas coisas fundamentais sobre o modo como se escreve a História."
Retirado da última do JN (por António Pina)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Primus Inter Pares

Reconheço-me em quase tudo quanto o meu mui citado Mestre JAM refere neste seu postal, numa alusão a estes "horizontes quase perdidos" do futuro do nosso sistema educativo. Claro que, ao nível da docência no superior, o mal entrópico 'apita' mais, tem outros canais de manifestação de algumas retroacções que o 'submundo' ou o nível inferior que é o Ensino Secundário não tem. Nem se vislumbram forças capazes de perfurar tão enraízadas "muralhas de aço" que amordaçam o Poder, mesmo que de um poder efectivamente reformador se trate!

Lembro-me de há umas semanas atrás, por exemplo, alguns se terem queixado ao nosso PR de uma como que vaga de 'assalto' de ultra-direitas à juventude escolar portuguesa! Pois eu, que neste nível de "submundo" ando há duas décadas, tenho visto por todo o lado o radicalismo, xenofobismo antrop-politológico, o numenclaturismo próprio dos totalitarismos neo-jacobinistas, com processos de linchamento das vozes de alguma crítica construtiva, apenas destrutiva do que está mal para todos, não apenas para alguns!

O que Mestre JAM está lamentando tem raízes muito mais profundas que apenas os claustros universitários, com promiscuidades cúmplices da verborreia situacionistaa, que veste de cravos vermelhos todos os 25 de Abril, para no dia seguinte negociar mais uma percentagem de um qualquer "assunto de interesse para a colectividade" (?) ...!

Mas vem isto a propósito desta rúbrica que ora começa e, creio, não poderia ter melhor começo do que incluir aqui, no nosso "Refúgio dos Profetas", esta "bicada" de Mestre JAM:

"Primeiro, a aula. Só depois, o capítulo...

Li as referências noticiosas sobre discurso de boas intenções do Senhor Primeiro Ministro quanto ao ensino superior. Acredito na determinação governamental quanto à anunciada terapia de choque. Nunca acreditei no modelo, até agora dominante, dos que querem conservar o que está, até porque nunca demonstraram querer conservar o que deve ser. Assistirei, com todo o zelo de homem livre, ao desenrolar de um processo onde a minha cidadania académica não foi, nem será, chamada a participar, mas a que responderei com lealdade aos valores e nas funções de professor catedrático e senador da minha universidade.

Sugiro apenas que não queiram descobrir o que já está descoberto nem inventar o que já está inventado: a ideia de universidade e os modelos de sucesso. Já agora acrescentem-lhe a experimentação de séculos de serviço público em Portugal, nacionalizando as excelentes ideias importadas pelos relatórios da OCDE e de outras agências globalizadoras, sem as traduzirem em calão. Os oligarcas da universidade a que chegámos preferiram a ditadura do "statu quo", outros começam a pensar no leilão e, enquanto o pau vai e vem, haverá sempre alguns primitivos actuais que aproveitarão para rapar os últimos restos do tacho, pintando-se de falsos dom-sebastiões, quando não passam de tigres de papel, repetindo o herético "dominus vobisque" de outras eras.

A história há-de registar em notas-pé-de-página este livro de estilo charlatão, onde todos vão ralhar porque falta o pão orçamental, o posto de vencimento e o diabo a quatro. Alguns até serão ousados e tentarão transformar as respectivas instituições em subdelegações das delegações asiáticas de certas potências universitárias do primeiro mundo, à espera dos futuros despedimentos da deslocalização globalizadora. Outros, percebendo que são fortes grupos de pressão corporativos, continuarão a assobiar para o lado, porque se consideram, e são, "praeter decretum", dos decretinos ocupantes do aparelho de Estado. Os restantes, perante tanta geometria variável, correrão para o acaso da encomendação feudal.

Por mim, sorrio, embora saiba que sofrerei no lombo a chicotada que deveria caber aos pecadores. Mas continuarei seguindo o lema de Hernâni Cidade: "primeiro, a aula, só depois o capítulo". O ensino superior continua à procura do bom senso, mesmo que ele seja Gago, mas não Coutinho. Falta-lhe um corrector de rumos colectivo a que na navegação se chamou sextante."

posted by JAM

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Hinos à hiper-razão dos mitos

O Eterno Retorno dos Mitos

Cumpro-me ao escrever o reflexo que a vida diz em mim. De vez em quando, porque não consigo fazê-lo sempre que, talvez, o devesse dizer aos outros para que, assim , todos possamos ser uma Voz que a Vida ouça, sindicando os males que já ninguém ousa denunciar! Pois que seja esse o pecado comunal, já que esse Todo mais que a soma das partes nos parece, cada vez mais, utopia de sobremesa de intelectuais irrequietos, na ânsia de ainda mostrarem que estão à altura de merecer o saque a que nos prostou a sua falta de coragem! E não digo nomes, nem funções, nem ocupações, nem tão pouco refiro relações! Nessa senda da falta de coragem, ainda dentro da coragem de o escrever!
Apetece citar algo do que leio, e por esse meio também me revejo no que vou vendo serem verdades porque se vêem, sem necessitar de outro espelho que não seja o da realidade que alguns gostariam que não alcançássemos. Pois só assim se sentem heróis! São os coroados pela frustração que querem partilhar com os outros, como se esse fosse o espelho da sua própria cobardia! A sua própria imagem chega para a negação que, no fundo, vêm de si mesmos, e esse é o único elemento que, no abismo da sua existência, lhes tapa a visão da inevitável fatalidade em que sabem viver! Como se o anticristo fosse outro deus feito pelos homens!
Também eu não dou para esse peditório! Não faço essa minha viagem de ser, em cada dia que passa, um pouco mais do sonho que não nos deixam alcançar! Por isso, atendi a esta peça de mais um dos 'bravos' que escrevem no Jornal de Negócios, e que aqui apresento pela primeira vez. Sem o conhecer, sei que o tenho de referenciar!
"A herança de Nietzsche
Alexandre Brandão da Veiga
O cidadão comum, na acepção do homem que aparece em público, tem uma visão sumária do que seja o pensamento de Nietzsche. O mito do eterno retorno, a oposição apolíneo/dionisíaco, ...
O mito do eterno retorno, a oposição apolíneo/dionisíaco, o super-homem, o anticristianismo, a libertação das barreiras morais são os lugares-comuns com que vê a sua obra.

Como quase todos os fundadores da modernidade, Nietzsche é um antimoderno. A modernidade vive desta contradição. É das raras épocas instauradas pelos seus principais detractores. Baudelaire, Proust, Thomas Mann, Goethe, Tocqueville, Gauss, Cantor, Bergson, Chateaubriand, Maxwell. A lista seria interminável e longa de demonstrar. Da física à matemática, da literatura à filosofia e ao pensamento político, Nietzsche integra-se nesta lista infindável.

Herdeiro de Maistre, do pensamento e do estilo francês que tanto admira e começa com Montaigne mas vai até aos românticos, Nietzsche é o grande cultor e a grande vítima do equívoco. Usado pelos nazis, liberais económicos fundamentalistas, extrema-esquerda e altermundialistas (tantos parentescos que têm entre si) para destruir em fronte comum o cristianismo e a noção de tradição e de hierarquia perene, não podia ser mais afastado de todos eles.

O mito do eterno retorno bebeu-o de herança grega e influência indo-europeia (persa e indiana). O problema é que confundiu com retorno o que mais não é que a experiência da identidade na sua imensa estranheza e insistência. A oposição apolíneo e dionisíaco esquece que pelo menos a realidade grega se pode chamar de olímpica nas suas maiores obras. A Ilíada é olímpica e não dionisíaca nem apolínea. A Odisseia é atenaica. Nem Apolo nem Dionisios têm algum papel relevante nela. Hesíodo é olímpico e ctónico. A cada deus se pode cotejar um estilo. E isto esquecendo as divindades ctónicas, e o culto dos heróis. A sua genial interpretação da cultura grega é mais um mote para agir no presente e futuro que uma rigorosa descrição da cultura grega. O super-homem não o encontraria nem na personagem da banda desenhada nem em Hitler, mas talvez mais em Robert Schumann e Alcide de Gasperi, para espanto dos incautos. Os que se sentem herdeiros do seu anticristianismo não percebem que estão dele bem mais afastados que os fervorosos cristãos. Só alguém com uma fervorosa ligação a Cristo vive obcecado em negar o seu ensinamento. A libertação das barreiras morais não significa, como julgam alguns, que tudo vale, mas que só quem tudo vale tudo pode.

Aqueles que se valem de Nietzsche no espaço público, sobretudo os que dele nunca ouviram falar, são das mais variadas espécies zoológicas. Fundamentalistas islâmicos ou do mercado, altermundialistas, libertários de costumes, estetas de autocarro, europeístas da tecnicidade pura. No final de contas, todas as modalidades de acefalia lógica e espiritual da nossa época. A ironia é que estes seus seguidores seriam os primeiros a ser desprezados pelo filósofo.

É que quem vê o Nietzsche de versão vulgata esquece assim as suas vertentes mais importantes: o espírito aristocrático, a exigência moral absoluta, seu amor pela Europa e a importância do estilo.

O espírito aristocrático bebeu-o Nietzsche em fonte grega, mas em geral na indo-europeística. A cultura alemã do fim do século XIX estava a anos-luz do resto do mundo nesta matéria, só tendo havido real recuperação francesa, inglesa e mais tarde russa, na primeira metade do século XX. Já na altura se percebiam as raízes profundamente aristocráticas do pensamento indo-europeu. Basta ver a Ilíada, ou o Mahabaratha. O pensamento aristocrático é alimentado de absoluto (o Bhrama védico, por exemplo), de espírito heróico (o super homem é apenas mais um dos retornos do tema heróico), de uma cultura de desprezo pela menoridade.

A exigência moral absoluta é apenas um dos seus corolários. Quem se reivindica de Nietzsche para justificar o relaxamento moral não se pode enganar mais na porta. Se o dito apocalíptico é o "sede perfeitos como o Pai é perfeito" o de Nietzsche seria "sede vivos como o Pai é vivo". O império da vida é o domínio da exigência moral sem limites, tudo o contrário do relativismo, da tolerância ou do relaxamento. O que Nietzsche critica no cristianismo é a sua falta de exigência, de tolerância pelos fracos, pelos menorizados, os subdesenvolvidos. Nietzsche não quer deitar fora o cristianismo para libertar a vivência tola e incontrolada. Quer uma moral bem mais exigente, sem perdão, sem culpas e consequentemente sem desculpas. Assim sendo, citar Nietzsche querendo dar ideia de que se é democrático de espírito só pode enganar desprevenidos.

Nietzsche é, por outro lado, um dos maiores amantes da Europa, e um profeta da sua unificação. Nietzsche profetizou que a unificação da Europa se faria pela via democrática e aí estaria tanto a sua salvação como os seus maiores perigos. É dos primeiros a sentir a americanização da Europa já no fim do século XIX, no caso pela frenética vivência do tempo. Os mesmos que condenam a Europa pelo seu frenesi esquecem-se que se esta sempre foi irrequieta, mas ser frenética herdou-o da filiação americana. A construção europeia deve-lhe muito, não nas suas modalidades, mas nas possibilidades intelectuais da sua realização.

É raro o grande escritor que não dê acento ao estilo. Falo obviamente apenas de grandes escritores. Apenas me lembro como excepção de Tchekov. É o único caso de imenso escritor em que o estilo claudica (falo em tradução, mas quem sabe da coisa afirma que o mesmo se passa em russo). Mas Nietzsche é talvez o único que fez um texto com o título "porque escrevo tão bem?", título chocante, mas infelizmente em que não se pode apontar crítica porque é eminentemente verdadeiro no seu caso. Quem actualmente se reivindica de Nietzsche mais uma vez se engana no caminho quando não valoriza e não exercita o grande estilo. Era herdeiro consciente da imensa tradição literária francesa e embora seja exagerado dizer que foi por sua via que o grande estilo entrou na literatura alemã, a verdade é que é juntamente com Mann o prosador alemão que mais intensamente liga a consciência do estilo com o seu exercício.

Os seguidores de Nietzsche no espaço público, quando invocam o nome, a obra ou sobretudo os seus argumentos, dizendo que superaram o pensamento cristão, que tudo é relativo, que a Europa é multicultural, esquecem-se que o fundo do pensamento de Nietzsche é ser ele mesmo o templo reconstruído, e no "nulla salus sine ecclesia" ser ele a igreja. Obra de titã, obra de herói, obra de majestade mas absolutamente impiedosa. "Deus morreu" tem muitas leituras, desde a histórica e sociológica, até à metafísica, e em certo sentido mesmo alguma leitura teológica um pouco menos ortodoxa (Cristo-Homem morreu na cruz, mas afinal era Deus, logo...). Mas Nietzsche sabia que a morte de Deus libertava o mundo. E para lá de bem e mal. Para a forma primeva, para o fundamental, mas um fundamental que é um abismo. Nietzsche atira para o abismo quem dele se aproxima, e poucos conseguem nadar nas águas dele.

Que implicações para o espaço público desta equivoca e demérita leitura de Nietzsche a que assistimos diariamente? Mais uma vez se pode pensar que apenas faço exercício de esteta ou que nada do que digo releva para o espaço público.

A parte mais importante do Assim Falava encontra-se na dança de Zaratustra. Sinto-me bem acompanhado nesta perspectiva, porque Jung a aceita e Heidegger não deitaria esta ideia fora. O ideal de Nietzsche é o homem que dança. É simples de se ver. O homem que dança tem a inteligência em todo o corpo e não apenas no cérebro. É por esta perspectiva que Nietzsche, mais que grande filósofo, é grande teólogo, sobretudo teólogo moral.

Mas o problema dos que rasgam horizontes é que deixam farrapos no caminho e na paisagem para que abriram as vistas. A sua moral de impiedade virou-se contra si, não lhe perdoando o fracasso perante a obra heróica. A grandeza de Nietzsche foi ter aberto como nunca antes uma caixa de Pandora na qual nem no fundo viu esperança. O homem público que queira ser seguidor mais ou menos confesso de Nietzsche tem de ser assim perguntado. E perguntado da seguinte forma: Danças? És impiedoso perante a fraqueza? Desprezas o insucesso? É-te inevitável desprezares-te falhando?

É que ou se segue Nietzsche por inteiro ou apenas às fatias. E Nietzsche às fatias é vácuo de sentido. Não se larga o cristianismo senão para um destino heróico simultaneamente individual e impessoal. Ou então está-se largar o cristianismo para o substituir por coisa nenhuma. Mas isso não é ser seguidor de Nietzsche. É apenas ser vazio. Não seguem ninguém. Apenas se vêem ao espelho."

E, dos hinos da minha imaginação libertística, lembro-me de mais esta composição dos America, ainda de tempos em que sonhar era, quotidianamente, como mais uma curva na estrada da vida ...




(America, Donkey Jaw, album America)

Donkey Jaw
Ah, get behind me satan
Quit ravishing the land
Does it take the children
To make you understand?
Ah, all across the nation
People don't understand
Does it take the children
To make a better land?
Then, get behind me satan
Quit ravishing the land
Does it take the children
To make you understand?
Does it take the children
To make a better land?