terça-feira, 19 de setembro de 2006

A Costa da Galícia

Com o Outono a chegar, a frescura da costa da Galícia.

Mais uma vez me lembro dos poemas que no Publicista passam, pela pena da Ana Márcia ... Eu acho que esta área da literatura celta ainda há-de merecer, pela sua mão, escritos bastante prometedores. Por mim, sinto a imaginação ir bem longe, transportada pelos sons bem característicos da música que lhe escolhi, a condizer. Sinto-me em casa!
A Celtic Blessing
May the light of your soul guide you.
May the light of your soul bless the work that you do
with the secret love and warmth of your heart.
May you see in what you do the beauty of your own soul.
May the sacredness of your work bring healing, light
and renewal to those who work with you
and to those who see and receive your work.
May your work never weary you.
May it release within you wellsprings of
refreshment, inspiration and excitement.
May you be present in what you do.
May you never become lost in bland absences.
May the day never burden.
May dawn find you awake and alert,
approaching your new day with dreams, possibilities and promises.
May evening find you gracious and fulfilled.
May you go into the night blessed, sheltered and protected.
May your soul calm, console and renew you.
Ou ainda, para complementar o conteúdo desta mensagem de um abençoado desejo, em contornos do sagrado, mais este poema cantado de ... John Milton (Song):
Song
Now the bright morning Star, Dayes harbinger,
Comes dancing from the East, and leads with her
The Flowry May, who from her green lap throws
The yellow Cowslip, and the pale Primrose.
Hail bounteous May that dost inspire
Mirth and youth, and warm desire,
Woods and Groves, are of thy dressing,
Hill and Dale, doth boast thy blessing.
Thus we salute thee with our early Song,
And welcom thee, and wish thee long.
The Coast Of Galicia - Bill Whelan (The Sevile Suite)

Em estilo laboratorial, dissecando o Homo democraticus ...

Vejo que há artigos de opinião que poderão contribuir para as linhas de uma sempre necessária renovação da teoria política. Os conteúdos da crítica que por estes lados, no Jornal de Negócios, e os de outros articulistas, noutras bandas dos escaparates jornalísticos, se vão construindo, constituem um material empírico à espera de uma adequada constextualização teórica, que a politologia académica tem de abarcar.
Neste artigo retirado do JN a sua autora dá-nos uma visão das vicissitudes por que passam os protagonistas da elite política, como autênticos actores de uma ópera chamada democracia ...
"Um assunto demasiado sério
Luísa Bessa
lbessa@mediafin.pt

Há na política um pingue pongue verbal que faz parte das regras do jogo. Os partidos têm diferentes projectos e para se baterem por eles precisam de evidenciar as diferenças. Se fizessem o contrário deixavam de ter razão de existir.
Tocamos na essência da democracia. Ser eleito em função de um conjunto de propostas, governar de acordo com elas e depois ser avaliado pelos eleitores.

É verdade que às vezes as coisas não são assim tão simples. Nem os eleitos governam exactamente de acordo com aquilo que prometeram nem as propostas são, frequentemente, o critério essencial para a decisão dos eleitores, que avaliam cada vez mais a confiança que lhes suscitam os candidatos do que as propostas propriamente ditas. Mas isso é outra conversa.

De acordo com estas regras, a defesa de pactos de regime entre quem está no poder e quem está na oposição pode parecer «contra natura». Aplicando-se os «pactos» a matérias que vão mexer com interesses instalados - e convém ter presente que quando se muda alguma coisa há sempre alguém que sai prejudicado -, é óbvio que a colagem da oposição a este tipo de decisões a faz partilhar os custos.

Apesar disso, o PSD tem insistido na proposta de pactos para um conjunto de matérias e faz bem. Ao fazê-lo Marques Mendes corre o risco de partilhar alguns custos da reforma, mas assume-se como o interlocutor privilegiado do Governo e o rosto da alternância, com a postura de Estado necessária a quem se apresenta como candidato a líder do Governo. E disponível para as decisões difíceis a que o estado do país obriga.

Até agora a estratégia tem-lhe corrido bem. Na Justiça, ninguém ignora que foi o primeiro a propor um pacto, logo em 2005, iniciativa que José Sócrates rejeitou liminarmente. Um ano mais tarde, o pacto aí está. Pode pecar por defeito, nomeadamente por excluir o reforço da luta contra a corrupção, mas mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.

Seguiu-se a Segurança Social. Com as propostas do Governo em discussão entre os parceiros sociais, o PSD deu o passo em frente: classificou-as de insuficientes para o longo prazo e propôs que uma parte das contribuições fossem canalizadas para um regime de capitalização.
José Sócrates aproveitou a deixa e anunciou a indisponibilidade do PS para aceitar a «privatização» da Segurança Social. Para diluição já basta o acordo na Justiça, de menor carga ideológica, era a mensagem implícita.

Mas, apesar das declarações públicas, é preciso perceber que: 1) o PSD não propõe a privatização da Segurança Social mas a adopção de um sistema misto, semelhante ao que foi adoptado por governos sociais-democratas europeus; 2) que o PS não exclui liminarmente essa opção, apesar de tudo o que tem sido dito nos últimos dias.

Assim, se a discussão é para levar a sério, convém que o PSD responda rapidamente ao Governo, ao PS e aos portugueses, como se propõe fazer a transição e quanto vai custar aos cofres do Estado a quebra nas contribuições que asseguram o pagamento dos actuais pensionistas, para responder à provocação de Vieira da Silva de que o que tem para apresentar se resume a «umas folhinhas no jornal oficial [no site do partido] que até são de difícil leitura».

Se o não fizer conclui-se que está a usar a proposta de pacto na Segurança Social como mero instrumento do pingue pongue do discurso político, o que não convinha mesmo nada. Primeiro, porque o assunto é demasiado sério. Segundo, porque as propostas do Governo para o reforço da sustentabilidade da Segurança Social são um bom princípio mas podem não ser suficientes. E já não há tempo a perder."

Por que será que este tema - o da elite - dá sempre tanto que falar!?!

Não vou recomendar, por não ser cronologicamente viável a leitura oportuna de uma tamanha obra, a única tese de doutoramento em Portugal dedicada ao tema da elite, do meu querido Professor António Marques Bessa - "Quem Governa? Uma Análise Histórico-Política do Tema da Elite". Mas não faria mal a ninguém que a lesse, tal é a pertinência da sua leitura relativamente ao momento sócio-político que, nestes dias, se viverá em Portugal. Como nos dá conta este já nosso conhecido colunista do JNegócios, em mais uma das suas "bicadas":

"Razão para desconfiar

Sérgio Figueiredo
sf@mediafin.pt

Há duas formas de encarar o movimento de elites, como aquele que depois de amanhã volta a reunir centenas de gestores e empresários no Convento do Beato.

Uma, céptica, corresponde à visão de um dos nossos grandes advogados que, ao Jornal de Negócios de sexta-feira, explicava porque era rara aquela entrevista: "Não aparecer é uma das poucas formas de elitismo que restam em Portugal."

A outra, romântica, é aquela que leva o seu filho a aparecer. Não só a aparecer na Convenção de quinta-feira, como a promovê-la, a assumir ali o protagonismo do debate sobre o tema da justiça.

Portugal está algures, entre o distanciamento de Vasco Vieira de Almeida e o empenho de João Vieira de Almeida, à procura de um rumo. Por vontade do pai, não era o "Compromisso Portugal" que mudava o país. Se dependesse do filho, não era de mudança que se falava, mas de ruptura.

Modelo Social. Competitividade. Justiça. Papel do Estado. Ambiente e Ordenamento. Educação. São os seis temas à discussão, por um movimento que renasce dois anos depois, e sintetizados num documento já disponível na Net (www.compromissoportugal.pt) que os próprios classificam como "provocatório".

Evidentemente que o modelo social precisa de ser reformado, porque os resultados que delem se tiram resumem-se a um fracasso nacional. Não existe, aliás, outra forma de interpretar a "bandeira de Cavaco" no combate à exclusão, senão o reconhecimento, ao mais alto nível, desse fracasso colectivo.

A competitividade da economia tem de ser, como é lógico, objecto de reflexão, devem portanto remover-se os bloqueios que se colocam às nossas empresas, porque até hoje ainda não se inventou o progresso de uma nação sem empresas saudáveis.

E, como óbvio, não é possível encarar um país socialmente mais justo e economicamente mais competitivo, se a justiça continuar a ser aquilo que é, se o ambiente e o ordenamento do território continuarem a ser depreciados, se o Estado não sofrer o choque de mudança necessário.

E, por fim, para que tudo isto seja sustentável, para preparar as futuras gerações para prosseguirem o caminho de desenvolvimento, é necessário mudar a cultura que prevalece no nosso sistema de ensino.

Portanto, não falta mote ao "Compromisso Portugal". Nem faltam motivos para a elite se inquietar. Nem a nação está bem, nem muitos daqueles promotores se recomendam. Mas, e o "pai" Vasco que me desculpe, é sempre preferível vê-los em manifestações públicas do que em peditórios privados.

Outro Vasco, ainda mais céptico, o Pulido Valente, escreveu na primeira Convenção algo do género: "Se esta gente estivesse no poder, o Governo caía num dia." É uma afirmação que se autodestrói: eles não estão no Governo, por isso é um absurdo exigir-lhes que se comportem como se estivessem.

Também um colunista de um jornal não escreve a pensar assim, senão pelo menos VPV deixava de fazer aquilo que faz como ninguém, se pensasse como um ministro...

Há, portanto, uma terceira forma de olhar para o Compromisso Portugal: a oportunidade para debater o que é preciso mudar. Com rupturas – e elas são necessárias para derrubar o "império das corporações". Com transições – e elas são recomendáveis quando se discute o modelo social e o papel do Estado.

Não me interessam as ambições políticas do dr. Carrapatoso. E é idiota desqualificá-lo por razões como esta. Se querem algo mais pateta, fica aqui uma revelação: foi um espanhol, Rafael Mora, que baptizou o movimento de "Compromisso Portugal". Em vez de só patearem, podem cantar o Hino Nacional."

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

O Espírito da Água

Nestes dias de interpretações discursivas pontifícias, lembro-me de outras fontes de inspiração divina …

Lembro-me que a Ana Márcia escreve muito pertinentemente sobre os poemas que evoca. E que nesses artigos estará, algures escondida nas entrelinhas, a linha ou o sentido lógico das suas intenções, dos sentimentos que associa aos conteúdos dos respectivos poemas. Para qualquer um de nós leitores, acidentais ou não, tudo passará pelas nossas interpretações, quer recorramos ou não às técnicas de análise literária.

Mas para percebermos as manifestações divinas, creio, por tudo o que a vida já me ensinou, não é necessária tanta instrumentalização da razão. E, por isso, fico-me aqui com mais esta “oração” musical que, lembrando-me apenas da primeira passagem do livro do Génesis, constitui a minha libertação musical de hoje, sem ter que pedir desculpa a ninguém (…?)!!!

Spirit of the Water

See the lights out on the water
Come and go, to and fro
In the time it takes to find them
You can live, you can die
And nothing stops the river as it goes by
Nothing stops the river as it goes
All alone and all together
Every day, come what may
By the time we find each other
We can live, we can die
And nothing stops the river as it flows by
Nothing stops the river as it goes

Camel – Spirit Of The Water - Moonmadness

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Mensagem de Esperança e Solidariedade aos Irmãos Tibetanos

Pelo Publicista, pelo Dalai Lama e ... pelo Tibete! Com evocação musical de Yungchen Lhamo!

Há já uns tempos que recebo e-mails da ICT - International Campaign For Tibet - mas, com a notícia da condecoração do Dalai Lama pelo congresso norte-americano, decidi dedicar esta Musicologia da Libertação em memória desse sagrado canto do Mundo, com o fundo musical de uma cantora tibetana que, desde pequena, se viu forçada a fugir da sua terra natal e cujas músicas traduzem a influência da violência dessa separação!
The US House of Representatives today passed a bill to award the Dalai Lama, Tibet's exiled leader, the Congressional Gold Medal, the nation's highest civilian honor. The award is in recognition of the Dalai Lama's advocacy of religious harmony, non-violence, and human rights throughout the world and for his efforts to find a peaceful solution to the Tibet issue through dialogue with the Chinese leadership.
The bill enjoyed broad bipartisan support, with 387 cosponsors drawn from both sides of the aisle in the House and Senate, representing more than two-thirds of Congress.
Lodi Gyaltsen Gyari, Special Envoy of His Holiness the Dalai Lama, said: "As a Tibetan, I am deeply touched by this gesture from the United States Congress. Together with the Honorary Citizenship recently bestowed upon His Holiness by the Canadians, this award is an indication of continued international admiration and appreciation of his contribution towards making ours a more harmonious world."

Yungchen Lhamo - Happiness is ... (Coming Home)


Assim, passa a figurar no sidebar deste blogue a respectiva etiqueta, alusiva a uma causa com que me identifico, pelo que o faço com muito gosto. Para saber mais sobre esta realidade está lá o link.
For centuries Tibet, a vast high altitude plateau between China and India, remained remote from the rest of the world with a widely dispersed population of nomads, farmers, monks and traders. Tibet had its own national flag, its own currency, a distinct culture and religion, and controlled its own affairs. In 1949, following the foundation of the Chinese Communist state, the People's Liberation Army invaded Tibet and soon overpowered its poorly equipped army and guerilla resistance.
Tibet is important to China for strategic and economic reasons and because of the Communist Party's imperialist ambitions. In China today, it is a serious offence to say that Tibet is separate from China.
In March 1959, Tibetans rose up against the Chinese occupiers. The uprising was brutally crushed and the Tibetan leader,
His Holiness the XIV Dalai Lama, escaped to India, followed by more than 80,000 Tibetans. Tens of thousands of Tibetans who remained were killed or imprisoned. Untold numbers, but at least hundreds of thousands, of Tibetans have died as a direct result of China's policies since 1949 - through starvation, torture and execution.
'Tibet is a human rights issue as well as a civil and political rights issue. But there's something else too - Tibet has a precious culture based on principles of wisdom and compassion. This culture addresses what we lack in the world today; a very real sense of inter-connectedness. We need to protect it for the Tibetan people, but also for ourselves and our children.'

- Richard Gere, Chairman of the Board of the International Campaign for Tibet

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

O barco do desespero

Em jeito de despedida do Verão, num “barco de tolos”, olhando os horizontes de um pôr-do-Sol em decadência …

Há certos momentos do espírito em que a sua melhor tradução se expressa, melancolicamente, numa contemplação desgostosa da situação humana, tal será a anomia e a angústia colectiva provocada pela frustração de impotência, face às adversidades que vamos encontrando, as naturais e as provocadas pela estupidez humana. Não admira, por isso, que Jim Morrison se comportasse como um tolo. Ele que, mesmo assim, não teve a oportunidade de viver as réstias de esperança que acreditava ainda possível para a continuidade deste mundo “voltar a casa”. No entanto, talvez tenha voltado para a casa que, realmente, queria!


Ship Of Fools

The human race was dying out,
No-one left to scream and shout
People walking on the moon,
Smog will get you pretty soon
Ev'ryone was hangin' out,
Hangin' up and hangin' down
Hangin' in and holdin' fast,
Hope our little world will last
Yeah, Along came Mister Goodtrips
Looking for a new ship
Come on, people, better climb on board;
Come on, baby, now we're going home
Ship of fools, ship of fools,
Smog will get you pretty soon
The human race was dying out,
No-one left to scream and shout
People walking on the moon,
Smog will get you pretty soon

The Doors - Ship Of Fools (Morrison Hotel)

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

O Céu é uma República Universal

As desilusões dos naturofilistas!

Resolvi dedicar este artigo da minha musicologia à cantora tibetana Yungchen Lhamo, nesta sua interpretação evocativa da necessidade do espaço de sentimento de liberdade que pode ser o céu ("Sky"), porque sou testemunha, também pelo que observei passar-se em Cabanas de Tavira (era o meu paraíso em 1973/74), das razões que levaram este leitor do JN a queixar-se do que consigo se passou na Zambujeira do Mar, que eu também conheci há 16 anos! ... E não vejo, nos sítios do Google sobre esta localidade, foto alguma do Bar da Praia! Razões de qualquer um dos que ame a natureza e sinta que manifestá-las não seja apenas um lamento, mas um grito de sinal! De que, ainda, podermos resistir!

"Zambujeira na hora da despedida
Frequentei o Algarve, Tomatoes´Beach, no final dos anos oitenta. O areal, forrado a toalhas Moschino, made in Alcochete, acolhia todo o tipo de fauna ministros sem pasta, mestres-de-obras com pasta, massagistas-leninistas, alguns esfregões de ideias, tias sortidas para todas as bolsas, artistas de plástico, um ou dois cirurgiões plásticos: - Ó Diogo, está a ver aquelas mamas rosa-choque?!, são minhas.Entre dois mergulhos e uma bisnagadela factor 92, não fosse o sol deprimir, discutiam-se, então, os sucessos da Pátria faltavam 600 metros para concluir a via rápida Quinta da Marina-Marraquexe, sem passagem pela Mealhada. O nosso PIB tinha já ultrapassado o do Gana e, pasme-se, preparava-se para superar o do Estrela da Amadora. Que mil Cavacos floresçam entre nós!, pedia-se.Desisti do Algarve quando, certo Verão, concluí que para comer dois rissóis e beber um sumo quase natural, teria, ao fim de doze rissóis, de vender o Clio-quase-pago e deixar a namorada como garantia.Subi, então, para a Zambujeira, que me acolheu na última década e meia. Recordo, com emoção, as noites quentes do Sudoeste - o pó, o cheiro a liberdade e a magia dos sons, misturando-se no ar como se fosse Sábado.Na Zambujeira do Mar tudo era diferente os peixes-aranha mais másculos, os charros mais ardentes, os cães tinham pulgas a sério, as donas dos cães não faziam brushing, os agentes da GNR, dois ao todo, multavam e reprimiam como gente grande. A nadadora-salvadora sabia a mar. "Espera-me entrando".Tudo corria bem até ontem. Ao tentar alugar a casa do costume, a senhora informou-me que todo o quarteirão virara condomínio fechado, com suites voltadas para o Rato e casas de banho com banda larga. O quiosque onde habitualmente comprava mortalhas era, agora, um posto avançado do SIS. Um néon, impante, anunciava "escutas sempre frescas". A tasca do Zé transformou-se num restaurante japonês com um nome quase pornográfico. O besugo deu em sashimi. Por fim, a praia dos nudistas, converteu-se num aquaparque com ministros amestrados e comentadores que vêm comer à mão.Fugi, espavorido, para o Porto. Nada mais simplex este ano acampo na Avenida dos Aliados, junto à piscina do Siza. Como não há relva, levo uma esteira de casa. Made in Zambujeira, está claro.


Yungchen Lhamo - Sky - (Coming Home)

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

A Humanidade não tem fronteiras

E porque amanhã, 11 de Setembro, não tratará apenas do começo de mais um ano lectivo, mas da evocação de uma data que tocará, talvez durante séculos, os corações da Humanidade!

Lembro-me do que já aqui tenho evocado do nosso Garb Al-Andaluz, e de como melodias como a que se pode ouvir, deste compositor argelino, nos transportam para esta espiritualidade mediterrânica, sempre irredutível na contemplação terrena dos nossos desígnios mais marcantes, sempre inigualável nas aspirações da alma e na virtuosidade!
Apenas desejo que os leitores não encontrem dificuldades na tradução da net-referência que segue, porque mais não quero dizer, nesta data que deve ser o exemplo de quando devemos respeito por todos quantos têm, naturalmente, direito a isso! A Humanidade não tem fronteiras!

"Rachid Taha

Never mind the war on terrorism, what about the war on fear, complacency, ignorance, racism, poverty and lies. That's a struggle that Rachid Taha has been fighting for the past two decades and more, ever since he was a tear-away punk immigrant from Algeria gobbing metaphorically and no doubt literally at the good burghers of Lyon in France. His band, Carte de Sejour (the French for 'residence permit'), proved that rock power, punk attitude and Arabic roots could get along famously if mentored by a passionate, razor-sharp and mouthy soul like Taha. Being proudly North African on the one hand and truly rebellious on the other has always meant struggle on many fronts and Rachid Taha has spent his whole career lobbing musical molotovs at the latent and, as recent event have proved, not so latent racism of the French in the form of classic songs like 'Voile Voile’ and 'Douce France' whilst berating his fellow North Africans for lack of ambition, obsession with tradition, cabaret complacency and enslavement to rai. 'There isn't only rai,' Taha said recently. 'My music has always been more influenced by chaabi (old style pop, mainly from Algiers & Ed) which I’ve always loved because of its poetry and rebelliousness.' After leaving Carte de Sejour at the end of the 1980s, Taha teamed up with the British producer and trance meister Steve Hillage to record a series of classic albums including 'OlÈ OlÈ', 'Made in Medina' and the classic 'Diwan', which features Taha's monster hit cover of 'Ya Rayah', an old song written by the Algerian Berber legend Dahmane El Harrachi. With its expert blending of North African roots, rock and house inspired electronica, 'Diwan' is nothing less than a template for the future development of North African music. Above all Rachid Taha is a great showman, delivering rude-boy witticisms and hilarious insights with sweaty passion whilst his band fire off raucous rock riffs and snakey Arabic melodies. It's a clear case of never mind the world music bollocks, here’s Rachid Taha. Courtesy of WOMAD.

«French-Algerian singer Rachid Taha's view of world events is not one that's shared by many people. He was quoted recently by BBC's 'The World' as saying, "When I hear George Bush, and when I hear Osama bin Laden, I hear two bedouin nomads. The only difference he says, is that one of them is from the desert of Texas and drives an SUV, and the other is from the desert of Saudi Arabia and rides a dromedary." Taha says Bush and bin Laden come from similar well-heeled backgrounds. And both, he says, use a similar fundamentalist rhetoric.»
No booklet do disco aqui evocado pode ler-se, a respeito do tema a ouvir:
"Barra Barra
À LÉxtérieur
Constat impitoyable sur le chaos généralisé dúne société,
ici ou ailleurs, qui a perdu ses points de repères.
Les youyous introduits au début et les notes plaintives du luth
soulignent l'aspect dramatique de la réflexion,
sur fond de mélodie orientalo-maghrébine.
Dehors, règnent la tristesse
Et l'insécurité
Les oiseaux ont cessé de chanter
Et peur de la majorité silencieuse
Les rivières se sont asséchées
Il n'y a plus que désolation
Enfer et damnation
Plus de respect ni dignité
Obscurité, obscurantisme
Et maisons sans vie
Le soleil, lui, a préféré
aller se coucher



Rachid Taha - Barra Barra (Made in Medina)

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Prenúncios de Tempestades

Mais uma vez recordando as 'homilias' da música dos anos 60/70, em mais uma das noites de lua cheia, com prenúncios de tempestade (?)!

Neste turbilhão de desconfortos, de ânsias e inquietudes, que o tempo que passa não passa, nem com notícias de terras de Vera Cruz, continuo a minha saga de Professor hiper pessimista. Já percebi as análogas preocupações do meu mui citado mestre JAM, que nem os banhos Atlânticos das praias do lado de lá conseguem lavar, tão manchada anda a nossa doméstica alma que continuamos a querer defender, cá dentro e lá fora, sempre tão longe quanto a imaginária armilar nos permita sonhar!
Por isso, revejo-me nesta evocação que faço, em jeito contemplativo, nas profecias de um pleno de luar atravessado por 'manchas' de uma rentrée que, Deus queira, não se apresente tão conturbada quanto este astro feiticeiro nos mostra! Nem que continuemos "cavaleiros de tempestades"!

Riders On The Storm

Riders on the storm
Riders on the storm
Into this house we're born
Into this world we're thrown
Like a dog without a bone
An actor out alone
Riders on the storm
There's a killer on the road
His brain is squirmin' like a toad
Take a long holiday
Let your children play
If ya give this man a ride
Sweet memory will die
Killer on the road, yeah
Girl ya gotta love your man
Girl ya gotta love your man
Take him by the hand
Make him understand
The world on you depends
Our life will never end
Gotta love your man, yeah
Wow!
Riders on the storm
Riders on the storm
Into this house we're born
Into this world we're thrown
Like a dog without a bone
An actor out alone
Riders on the storm
Riders on the storm
Riders on the storm
Riders on the storm
Riders on the storm
Riders on the storm
(Lyrics retirados do Google)

The Doors - Riders On The Storm (L. A. Woman)

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Em memória do Professor Doutor José Maria Gaspar ...

Que, na cadeira de Direito Administrativo, nos ensinou que, nesta terceira República, vivemos uma autêntica "diarreia legislativa". E não é que ele lá tinha as suas razões, teóricas e retóricas? Quantas bastasse para, mesmo à margem de uma definição científica da provérbica expressão, se constatar que o caminho que os procesos legislativos têm seguido (latamente entendidos com todos os factores que os contornam em consideração) só comprova aquela que quase pode ser uma máxima para os políticos actuais: "o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira"!!! em mais esta do Jornal de Negócios.
"Cair na real
Luísa Bessa
O que nasce torto tarde ou nunca se endireita. Diz o ditado popular e deve ser verdade. O dito aplica-se neste caso ao Código do Trabalho.
Nascido do ímpeto reformista do Governo de Durão Barroso, que como se sabe não resistiu a dois anos de crise económica, o Código foi apresentado para revolucionar das leis do trabalho em Portugal, contribuindo para uma maior flexibilidade e por essa via para o aumento da competitividade da economia.
Os objectivos eram justos mas depois de mais de um ano de discussão, o resultado final ficou aquém das expectativas. Foi a consequência da via sacra da política em Portugal: contestação sindical incluindo uma greve geral, e já depois de aprovado, da passagem pela fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional, que declarou inconstitucionais alguns artigos.
Expurgado de inconstitucionalidades, o Código entrou em vigor em Dezembro de 2003. Desde então, ao contrário do que vaticinavam as centrais sindicais, nenhuma revolução varreu as relações laborais em Portugal. Tudo como dantes, neste país de brandos costumes. E ainda haveremos de ver os que o atacaram a defendê-lo, em nome dos direitos adquiridos...
A relação do PS com o Código também é ambivalente. Em 2003, como maior partido da Oposição, votou contra. Na campanha para as legislativas de 2005 fez da revisão antecipada uma das suas principais bandeiras, que verteu na íntegra no programa do Governo.
O Governo, que pretendia equilibrar a relação de forças entre trabalho e capital, protegendo os trabalhadores, comprometia-se a seguir «uma estratégia de transformação modernizadora da legislação laboral» - o que quer que isso quisesse dizer. Mas, embora em sentido contrário à mudança iniciada por Durão Barroso, também o ímpeto de Sócrates esmoreceu.
Vieira da Silva agiu primeiro como bombeiro. Com a lei 9/2006 introduziu alterações de carácter urgente para impedir que à caducidade das convenções colectivas se seguisse o «vazio», respondendo à pressão dos sindicatos que se viram pela primeira vez confrontados com o risco de as convenções caducarem em situações de falta de acordo entre os parceiros (antes do Código na falta de acordo entre patrões e sindicatos as convenções antigas mantinham-se em vigor, o que significava na prática a manutenção do status quo). A lei entrou em vigor no início do ano mas nem por isso o ritmo de assinatura de novos contratos acelerou de forma significativa - até meio do ano havia menos de cem novos contratos assinados, em média com os 200 do ano anterior. Com a nota positiva de alguns bastante inovadores, como o do sector do vestuário.
Apagado o fogo das convenções, o Governo reduziu a ênfase na revisão do Código, uma postura que limita os atritos com as confederações patronais, em especial com a CIP, que logo quando o Governo tomou posse havia declarado inaceitável a revisão antecipada.
E assim a comissão do Livro Branco, que desde há meses se sabe que será presidida por António Monteiro Fernandes, continua a marcar passo, sem ser formalmente constituída. Sem dar o braço a torcer, o Governo acabou por atirar a revisão para 2007, a data prevista no próprio Código. Mas pelo caminho que as coisas estão a tomar, até pode ser depois.
Tudo depende da amplitude da revisão, que os sindicatos, em especial a CGTP, vão querer maximizar. Veremos como descalça o Governo a bota de atirar a conflitualidade entre patrões e sindicatos inerente ao processo de revisão para o segundo ciclo da legislatura. Vieira da Silva, às voltas com a reforma da Segurança Social, pode estar renitente em comprar outra guerra sobre o Código do Trabalho. Ou pode, simplesmente, ter caído na real."

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Dos Choques Tecnológicos

Choques, contra-choques, pára-choques, petrolíferos, de ideias, de cabeças, eléctricos, tecnológicos ... disto anda o Mundo cheio!

Gostei deste episódio aqui narrado, tirado de mais uma das cronistas do Jornal de Negócios (este jornal tem uns colaboradores nada condizentes com o significado literal do seu título ...?), e daquele ar tão naturalmente lusitano dos que se perdem na imensidão do deserto da genuína ignorância. Vale-nos o semper fidelis publicum servitorem, mesmo quando queremos, em qualquer recanto que não seja o de nossas casas, aliviar-nos das dolorosas necessidades da bexiga - apesar de nos WC da CP os utentes ainda terem de pagar 50 cêntimos para esse alívio, em pleno choque ... tecnocrático)

"O choque tecnológico no Portugal profundo

Isabel Meirelles
Não ter acesso à Internet, à nossa caixa de mail para enviar ou receber correspondência electrónica, bem como estar, ainda que temporariamente, impedido de tirar partido de todas as funcionalidades que as maravilhas tecnológicas põem hoje à nossa disposição é, para quem tem o vício e a necessidade, quase o mesmo que ser homeless. Pelo menos, é assim que me pressenti quando, estas férias, ao ter que ir ao concelho de Coimbra primeiro e ao de Mourão depois, decidi levar o meu portátil que, contudo, tinha a dificuldade de poder não ter nos locais de destino ligação à famigerada Internet a fim de poder continuar conectada com o mundo em geral e o trabalho em particular. Em suma, férias mas non tropo.
Ora, para acautelar a situação, decidi ir à loja de um operador de telecomunicações onde adquiri uma placa que, qual milagre, me dava ligação sem fios à tão almejada Internet, bastando seguir as instruções de instalação de um simples CD que vinha no pacote. Parecia simples, nem sequer muito dispendioso e, assim munida, senti-me, qual Jacinto das Cidades e das Serras, a empreender uma viagem dos Campos Elísios até Tormes, carregada de bagagem repleta de civilização.
Contudo, tal como aconteceu a Jacinto, a minha bagagem tecnológica não se perdeu, mas pode dizer-se que a situação se lhe equivaleu, porque fui absolutamente incapaz, apesar de todas as tentativas desesperantes e desesperadas, de pôr a bendita da placa de ligação à Internet a funcionar, o que me estava a impedir, com todos os prejuízos sobretudo psicológicos daí decorrentes de, designadamente, enviar os textos destas crónicas.

Instalada a incapacidade e o pânico, decidi tomar outras medidas drásticas e procurar, no caso vertente em Miranda do Corvo, um pólo cibernauta, um qualquer ciber café que, para espanto meu existia, mas que em Agosto se encontrava fechado para férias! Afinal até o plano tecnológico tem direito a época estival. Já no limite do meu tempo, e quase à beira de um ataque de nervos, munida de pen e de disquete, e de tudo aquilo que fosse compatível com o mais jurássico dos equipamentos, dirigi-me à Câmara Municipal onde não só havia Internet como o atendimento foi surpreendentemente profissional, tendo-me sido indicada a biblioteca municipal onde o serviço disponibilizado, para além de gratuito, foi digno de um qualquer organismo de paradigma finlandês.

Uma semana mais tarde voltou-me a acontecer algo semelhante em Mourão, onde a cena se repetiu. Munida da experiência adquirida dirigi-me ao Cibercafé que, desta feita, estava com os servidores em baixo. De novo foram os computadores da Câmara a salvar a situação, igualmente com enorme mérito do funcionário respectivo que, com uma eficiência, gentileza e profissionalismo impares, provia às necessidades informáticas do burgo.

Chegada à capital em terreno informático firme, precipitei-me com curiosidade ávida na pesquisa do Plano Tecnológico em cujo website se pode ler que o Plano Nacional de Acção para o Crescimento e o Emprego 2005-2008 é a resposta portuguesa aos desafios propostos pela Estratégia de Lisboa relançada, com destaque para os objectivos de aposta na sociedade do conhecimento, o aumento dos níveis de competência, o desenvolvimento científico e tecnológico e um processo de aprendizagem ao longo da vida.

É sem dúvida um plano estratégico, e talvez a espinha dorsal do nosso desenvolvimento, que conta com um montante global de fundos comunitários de 22,5 mil milhões de euros, dos quais cerca de 75% se destinam à modernização do tecido económico e empresarial, bem como da qualificação e da reconversão profissional.

Contudo, como parece que já está a acontecer, e falo desta experiência marcante, o exemplo tem que vir do próprio Estado, seja ele Administração Central ou local, até para que os Jacintos doutras paragens se sintam tão confortavelmente como em Tormes, numa simplicidade bucólica, mas com o essencial das comodidades actuais que passam pelas indispensáveis tecnologias de informação e que são parte integrante da sociedade do conhecimento que se almeja mesmo para os sítios mais recônditos deste nosso Portugal."

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

"Bancos de Agosto"

"Até um dia destes, se Deus quiser"! Assim me despedi dos que há anos não via, nos corredores da minha Escola que é o ISCSP.

Já a meio deste mês que nos destinam para descanso, tenho que começar a tratar dos assuntos que é necessário resolver para mais um ano de trabalho (s), ou para o tornar o menos pesado possível, entre tempestades e cabalas (?)! E porque venho agora com esta? Pois, após ter tido uma conversa, tão instrutiva como amiga, com o meu antigo Professor de "Métodos" Fausto Amaro, vejo outro dos meus docentes de então ao fundo, no meio da luz ao fundo do "corredor", mas com o mesmo aspecto de sempre, como se os anos lhe não tivessem passado por cima. sempre agarrado aos livros, que consigo transporta! E que, agora, mais do que há já muito tempo não é, anda com um ritmo de leitura impressionante! Depois da Mega cabala que, entre outras das vicissitudes dos meandros político-universitários, o obrtigou a uma "protecção" cardíaca! Falo do mui controverso Professor José Júlio Gonçalves, que na Sociologia me ensinou a ter sempre muita atenção ao "cheiro", uma variável de análise sociológica impressionante, a seu ver merecedora de uma especialçização sociológica ... não me esquecerei tão facilmente!
E assim me apetece rever estas conjecturas ao espelhá-las neste artigo de verão do já mui referenciado autor desta rúbrica que é o Sérgio Figueiredo, e nele compreenderão a razão de ser deste paralelismo de conteúdos. Como me dizia hoje de manhã o Prof. JJ, há por aí muitos desses "novos cães de guarda"!
"Bancos de Agosto

Sérgio Figueiredo
sf@mediafin.pt



Esta coluna não deverá ser hoje lida pela metade do país que descansa em férias. E mesmo a outra metade, aquela que aproveita o lento ritmo de Agosto para trabalhar sem grandes sobressaltos, merece um prévio pedido de desculpas.
Porque é terrivelmente aborrecido ter de reflectir sobre os impostos e sobre lucros. Sobre as poupanças que faltam e os juros que sobem. Sobre quem paga e quem não paga. Sobre justiças e outras coisas mal justificadas.
O Jornal de Negócios adapta-se ao Verão. Porque procura estar sempre adaptado aos hábitos dos seus leitores. E quer ver uma coisa curiosa? O Ministério das Finanças concorda. Senão leia na página 22, precisamente no caderno «Verão», o levantamento exaustivo que o «staff» de Teixeira dos Santos realiza às notícias económicas publicadas em todos os jornais nacionais.
Adivinhou: nestes meses caem a pique. É, portanto, um instinto de sobrevivência, os jornais especializados ajustarem a oferta de conteúdos à época. Programam-se trabalhos diferentes, publicam-se entrevistas diferentes, sem contudo abdicar dos cromossomas que nos distinguem dos outros.
E, com este tal instinto de mercado, as duas jornalistas que assinam dois dos melhores trabalhos da nossa edição de hoje deram-me a mesma resposta, quando lhes disse que o editorial do jornal era sobre o seu assunto. A mesma resposta, em duas conversas separadas: tentaram demover-me.
Não o conseguiram. E cá estão eles, os juros (página 26) e os impostos (páginas 14 e 15) a servir de mote. Com dois denominadores comuns: um é que, em ambos os casos, não queremos que eles subam; o outro é a banca. O sistema financeiro está presente pelos impostos que pagam e pelos juros que cobram.
Pouco no primeiro caso. Muito no segundo. Por isso são tão impopulares. Tão imprescindíveis quanto impopulares. Também por isso, por serem um «bem comum», por Portugal ter uma das populações mais bancarizadas da Europa, são frequentemente discutidos com muita demagogia e pouca informação.
Os lucros exorbitantes, a tributação insuficiente, a relação assimétrica que mantêm com o cliente: quando os juros directores sobem, o custo do crédito cresce e o rendimento do depósito... esquece.
Pois bem, há uma boa notícia de Verão neste assunto árido: os bancos voltaram a andar atrás do seu dinheiro. Pela primeira vez em muitos anos, praticamente desde que o país iniciou a rota de aproximação ao euro, estamos a assistir a uma guerra pela poupança.
É verdade! Todo o sistema financeiro esteve concentrado nos últimos anos a promover o principal negócio: o crédito deles, que é o nosso endividamento. Não há memória de uma grande campanha sobre um produto de poupança, uma conta especial.
Os juros pagos, na grande maioria dos casos, inferiores à inflação. É normal que a banca não faça grandes ondas, do género «deposite no nosso banco e perca menos que nos outros». O cliente, logo, a conta, estava ganho pelo contrato da casa. E do carro. E da viagem de sonho.
Quando o Banco Central Europeu aperta a política monetária e os juros directores sobem isso não é mau para a banca. Pelo contrário, as margens aumentam, mas, ainda assim, dá e sobra para remunerar melhor a poupança. A economia agradece.
E os impostos? Pois é. Há razões para a taxa efectiva de IRC da banca ser a que é. E há razões para os lucros apresentados crescerem como crescem. Mas o facto é que a taxa efectiva de imposto sobre os lucros da banca cai para 18%. E os lucros continuam a crescer.
Se há explicação para isto, temos outra situação inédita: são os banqueiros que estão em dívida para com a sociedade. Devem, no mínimo, a pedagogia da explicação. É que, quanto mais se olha para aquele IRC de 18%, mas vem à memória o número que, em letras garrafais, vinha estampado na primeira página de ontem: 1.350. Milhões. De euros. De lucros. De cinco bancos. Num simples semestre."

terça-feira, 15 de agosto de 2006

"Harakiri global"

E por que é que a Economia Política, que não trata necessariamente, apenas, de questões de política económica, é uma ciência por muitos amaldiçoada!

Ainda em férias, à espera de lhes apanhar o gosto, revejo as minhas notas do "Prelo", e 'desenterrei' mais este artigo de opinião, deste rapaz que, um dia, ainda se vê agregado nas adjuntices hipócritas, se não conseguir manter-se leal às suas próprias e muito convenients críticas sociais, muito para além do seu peso especificamente economista.
Lembro-me de que nem tudo o que releva nas Economias tem de circunscrever-se às contabilidades ou disciplinas de cálculo económico e/ou financeiro, tal como as domestic politics não se determinam exclusivamente pelos parâmetros das respectivas Contabilidades Públicas. Se não, vejamos esta pequena 'lição' que o autor nos transmite relativamente ao evoluir da economia mundial, na actualidade. Sem ironias. Mas reportando-se a n hipocrisias!
"Harakiri global
Sérgio Figueiredo
sf@mediafin.pt

Estavamos entretidos com as crises caseiras, a política e a económica, que nem demos por isso: mas a economia do mundo vive há quatro anos de ventos favoráveis.
Tão favoráveis que é preciso recuar ao início da década de 70 para encontrar outro período igual. Em crescimento económico. Em crescimento do comércio (preços e volumes). E também em liquidez disponível.
Nestes quatro anos domina ainda a reflexão sobre causas e motivos que levaram Portugal, ao contrário de outros países, a desperdiçar um contexto internacional tão impressionante. Não é o que se propõe hoje.
Em tempo de férias não é tempo de insistir nas conhecidas vulnerabilidades. Nem para perturbar o sossego de quem está ou se prepara para o merecido descanso. A ideia é, portanto, ignorar as desgraças nacionais. Falemos das alheias.
Para tentar perceber como é que o mundo, os líderes deste mundo que avança em grande velocidade, puxado por novas e impensáveis locomotivas, decidem saltar dos carris e comprometer uma das origens deste sucesso global recente.

Não bastava o petróleo a caminho dos 100 dólares? A consequente pressão sobre os preços? E o necessário aperto da política monetária, desencadeado pelos principais bancos centrais? Como é possível desfazer anos e anos de negociações e, num ápice, implodir o sistema de comércio internacional mais livre?
O comércio livre é uma base sólida da globalização. A globalização transformou-se no grande palco das ideologias do século XXI. Até das mais idiotas, que são, simultaneamente à esquerda e à direita, as dominantes. Ideologia com idiotice gera hipocrisia.
Seria idiota pensar que foi a ideologia que tornou os Estados Unidos incapazes de cortar os subsídios públicos aos agricultores. E não são idiotas os outros cinco protagonistas da Organização Mundial do Comércio (União Europeia, Japão, Austrália, Brasil e Índia), que iniciaram uma maratona de 14 horas, até à madrugada de ontem, para se autodeclararem um fracasso.
Hipocrisia global. Num triunfo de burocratas. É esta a causa e a conclusão do fim de Doha. Assim decretado pelo britânico Peter Mandelson: «Perdemos a última saída da estrada.» Onde entraram há cinco anos.
Cálculos do Banco Mundial apontam um «custo» para o insucesso de Doha: 227 mil milhões de euros. Era a impressionante soma de ganhos com o aprofundamento da liberalização da agricultura, da indústria e dos serviços. São cenários, valem o que valem.
Embora não restem dúvidas quanto ao impacto extraordinário que foi produzido pelo dinamismo comercial em grandes economias (e não é só a China...). E de outros países que antes, em contextos de maior proteccionismo, revelavam uma fraca capacidade de reter os benefícios gerados em fases de prosperidade.
A abertura favorece os sectores exportadores e respectivos empresários e trabalhadores. E o obsoleto método negocial da OMC só está concentrado nos «custos» que a abertura de fronteiras traz, evidentemente, aos sectores importadores. Agricultura e têxtil celebram o fim de Doha. Aqui, no resto da Europa, nos EUA. São eles os vencedores de um mundo fechado ao comércio livre.
É o mundo em que perdem os exportadores, ou seja, os mais dinâmicos, aqueles que puxam pela produtividade, pelos salários e pelo crescimento da economia. O mesmo mundo que penaliza os consumidores, impedidos de aceder a bens importados e mais baratos – a maioria dos «ganhos» de 227 mil milhões foi calculada pela queda de preços de bens agrícolas e de vestuário.
O brasileiro Celso Amorim é menos fleumático e pouco exagerado. Saiu da reunião recusando-se a classificar o momento de desastroso: «Mas esta situação é a mais próxima que podemos ter do desastre.» Problema deles?..."

sábado, 12 de agosto de 2006

"Democracia com sexo"

Ésta é das boas, que não estando frescas nos fazem constantemente refrescar a memória do que, realmente, somos ... hojem mais do que nunca, por decreto!
O caso faz-me lembrar a crescente possibilidade biológica de manipulação genética, também aplicável na reprodução humana, e como no futuro, neste sentido logicamente sem lógica, se decretará uma quota de reprodução para os géneros humanos (a saber, mais que os naturais dois, masculino e feminino), consoante as exigências sócio-políticas então vigentes. Nessa altura, talvez o "eixo do mal" já tenha sido aniquilado, os "terroristas" sejam figuras fósseis em albuns ou museus, os homens e mulheres sejam espécie em extinção!
É que eu já li, há uns bons 20 anos, um livrinho que, de autoria da boa linha teórico-política americana, versava sobre as relações da biologia e da política! ... O que pode ser perigoso! Mesmo muito perigoso! Como nos chama a atenção o autor de mais este artigo do Jornal de Negócios, integrando-se a variável sexo nas outras determinantes sociológicas pertinentes, resta-nos, para o futuro das nossas consciências sociais e das dos nossos governantes que assinaram esta Lei, a questão de se saber quantas mulheres pobres deverão fazer parte das listas partidárias nos actos electivos! Ou, noutra esfera da vida social, que percentagem de homens deverá fazer a lida da casa, enquanto a mulher se candidata a ser presidente de alguma coisa!Ou vice-versa!

Democracia com sexo
Sérgio Figueiredo
sf@mediafin.pt
"Este é um daqueles textos que pode não resistir aos factos da História. E tomara que seja! Oxalá os resultados surjam, a diligência redunde num tremendo sucesso e a classe política se torne mais feminina – logo, mais competente.
Queremos que tudo isto aconteça, sobretudo porque o país precisa. Mas, além disso, porque seria surpreendente.
Falamos da Lei da Paridade, uma iniciativa do partido da rosa (que outro poderia ser!..), que impõe a inclusão de um terço de mulheres nas listas às eleições e ontem foi finalmente promulgada pelo Presidente da República.
O PS reagiu: na reforma do sistema político, será esta a medida mais emblemática da legislatura. Todos os outros, à excepção do BE, são contra, com argumentos do género «não respeita a liberdade de funcionamento dos partidos» e uma série de tretas que, como outras, explicam porque os partidos têm, de facto, cada vez menos mulheres na militância. Mulheres e homens.
Ou seja, em traços muito gerais e a partir de agora, para um partido político concorrer a eleições autárquicas, legislativas e europeias, tem de assegurar que, entre cada três candidatos eleitos, um será obrigatoriamente mulher. Caso contrário, sofre um corte nas subvenções do Estado.
É fácil atacar esta Lei pela razão mais óbvia: a discriminação. Mas é realmente o maior vício deste raciocínio, o pecado original desta iniciativa do PS, que é partir do princípio que a discriminação existe.
O raciocínio está viciado porque está por provar que os partidos excluem deliberadamente as mulheres quando formam listas eleitorais. É inegável que o nosso Parlamento tem poucas deputadas. E, também, que os partidos têm poucas mulheres nas suas fileiras.
Até seria admissível, porque mais coerente, que a legislação fixasse uma quota de mulheres eleitas em função da representatividade das mulheres dentro de cada força partidária. Coerente, mas pouco exequível. Assim fica artificial.
Artificial porque o que a Lei da Paridade faz, com o alto patrocínio do Presidente, é ignorar que a Assembleia da República reflecte a vida dos partidos e que estes reflectem a realidade do país.
Partir do princípio que a discriminação nas listas existe é o pior dos vícios do raciocínio que levou a Assembleia da República a aprovar esta Lei, mas não é o único. O segundo é pensar que se resolve uma discriminação por decreto. O terceiro, mais paradoxal, é estar a criar uma Lei que é, ela própria, discriminatória.
Se existe uma exclusão objectiva das mulheres da vida política activa é porque existem fortes razões económicas, culturais e sociológicas para tal acontecer. A Lei do PS não é uma medida oca-sional, é aliás reincidente, porque a maioria parlamentar, então adversa, lhe chumbou iniciativa idêntica há praticamente seis anos. É, assim, uma convicção socialista: identificar o problema, manter as causas, atacar as consequências.
É o paradoxo que tem sido mais debatido: criar quotas por sexos no Parlamento discrimina as mulheres e também os homens. Consagra, na lei, a ideia perversa do «sexo oposto». E abre precedentes. E as minorias étnicas? E os deficientes? E quem representa os pobres? E os desempregados? Enfim...
E por que desejamos que a História se encarregue de provar que o equívoco, afinal, está neste texto? Porque a «ditadura masculina» na política já foi derrubada noutros países por imposição legal. Nos países nórdicos, lembram os apologistas. Nos países ex-comunistas de Leste, devemos também recordar. Para distinguir entre aqueles que valorizam a mulher na sociedade e os outros que a promoviam artificialmente a cargos políticos. E nós, infelizmente, não somos suecos."

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

My God ... Que Férias?

Reaparecendo ... na quase pseudo terapêutica das férias que se imaginam ... quanta "postagem" não aconteceu?
Pois é! Nestas pretensas férias que se vão concretizando, à medida que o corpo em comunhão com o espírito disso se vão convencendo, lembro-me que comecei a ler "Uma Dívida Moral"! Tema interessante para quem, nestas pretensas vaganças, está a construir o esboço inicial da disciplina de Ciência Política para alunos do Ensino Secundário (se, entretanto, os donos do salamaleque do costume não se apropriarem de competências alheias, que é o mesmo que dizer se os donos da hierarquia antipedagógica da 'idade é um posto' não convencerem os senhores das escolas de que as disponibilidades disciplinares das ditas assim devem ser preenchidas ...). Obra que trata das relações entre a Igreja Católica e as perseguições ao povo judeu, contribuindo para o actual debate desta contabilidade politológica!
Assim me vem à ideia, também, o tema do velhinho Jethro Tull (Aqualung), My God, nessa mística que é essa social teocrítica anticatólica, numa noite de lua cheia de Agosto! Nada mais a gosto de um contra-gosto!

My God

People what have you done
locked him in his golden cage.
Made him bend to your religion
Him resurrected from the grave.
He is the God of nothing
if that's all that you can see.
You are the God of everything
He's a part of you and me.
So lean upon him gently
and don't call on Him to save you
from your social graces
and the sins you wash to waive.
The bloody Church of England
in chains of history
requests' your earthly presence at
the vicarage for tea.
And the graven image you-know-who
he's got him fixed
with his plastic crucifix
confuses me as in who and where and why
as to how he gets his kicks.
Confessing to endless sin
the endless whining sounds.
You'll be praying till next Thursday to
all the God that you can count.

Jethro Tull - My God (Aqualung)

domingo, 30 de julho de 2006

Kafka e Maquiavel nos Curriculos, já!(?)

Por que razões se deveria ensinar nas escolas Franz Kafka e Nicolau Maquiavel!
"Observatório admite que recrutamento de jovens nas escolas pela extrema-direita é preocupante

O presidente do Observatório da Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, Rui Pereira, admitiu hoje que o recrutamento de jovens nas escolas secundárias pela extrema-direita é preocupante, mas desdramatizou as consequências desta situação.

"Estas situações são sempre preocupantes, mas não atingem uma dimensão onde o Estado de Direito democrático está em perigo", afirmou.
"É preocupante no sentido que se tratam de jovens, pessoas que ainda estão a formar o seu conjunto de valores, mas não é dramático".
Segundo noticiou hoje o semanário “Expresso”, a extrema-direita tem vindo a recrutar, desde o início do ano, estudantes em escolas secundárias de todo o país.
A mesma notícia, que faz hoje manchete no jornal, refere que esta questão já foi objecto de um relatório da GNR, entregue na passada terça-feira ao Ministério da Administração Interna e da Educação.
"É meritório que a GNR e as forças de segurança estejam atentas a este tipo de situações", salientou Rui Pereira, defendendo uma actuação concertada e coerente entre a sociedade e as entidades de segurança de forma a travar a expansão de ideias de cariz xenófobo e racista.
"A sociedade no seu conjunto deve fazer, de uma forma muito persistente, a apologia de valores como o humanismo, solidariedade e igualdade".
Para Rui Pereira, esta situação também deve ser observada tendo em conta o actual panorama sociológico de Portugal. "Portugal passou de um país de emigração para um país de imigração. Atravessou um processo de desruralização e litorização. Os hábitos de consumo mudaram e a população está mais orientada para o consumo".
Rui Pereira fez ainda referência ao crescimento de uma criminalidade mais ligada ao tráfico e consumo de drogas. Um cenário que torna alguns jovens "mais vulneráveis" a determinadas mensagens e discursos, concluiu.
O Observatório foi constituído em Dezembro de 2004 com o objectivo de acompanhar, de forma sistemática, as questões da segurança, nomeadamente as relacionadas com o terrorismo e criminalidade organizada."
E eu pergunto-me se, nesta mesma perspectivação de preocupações (pelo menos ao nível institucional, a da relação entre a necessária disponibilidade para acompanhamento do Observatório neste domínio e as oficializadas informações que as instituições escolares disponibilizam para o efeito), não haverá história suficiente para dedução de uma inadmissível e escandalosa sectorização da esquerda radical na estigmatização personalista com que se administra a vida escolar (dá para evocar, muito ao jeito académico, a "luta escalonada pelo poder", in MOREIRA, Adriano, Ciència Política, Livraria Almedina, no tocante à linha estratégica com que, neste domínio do Sector Público, o contra-poder subterrâneo tomou de assalto os micro-poderes subestatais das decisões escolares).

quinta-feira, 20 de julho de 2006

"As contas que o governo não presta"

Que esta maiêutica anti-socrática possa “dar à luz” …
É uma legiítima pretensão de cidadania, sobretudo quando esta questão, apresentada por este articulista do J Negócios, assume contornos jurídico-político-constitucionais que nos permitem classificá-la como mais um facto político que sirva, paradigmaticamente, a pedagogia da democracia participativa. Não nos devemos contentar com os maquiavelismos, expostos e denunciados pelas pobres e residuais explicações, típicas dos policy makers, mesmo quando se atenuam pelo facto de nos serem, formalmente ou não, prestadas por responsáveis governamentais de posições mais baixas na hierarquia do Poder do Estado.
E, por isso, prezo sempre estas “tiradas” de informação/ reflexão, eu que também tenho um capital de queixas engendradas pelo défice democrático com que muitas das situações, por mim protagonizadas ou não, acabaram por me prejudicar, física, mental e, acima de tudo, profissionalmente, quando agi em conformidade com a minha consciência de cidadão e de funcionário da República.
Então, força rapazes! Mas cuidado, que “dar à luz” é, mais que uma “arte”, certamente um acto violento e, por isso, acarreta sempre alguns perigos, sobretudo quando a democracia se torna, eventualmente, numa miragem (!?...).
As contas que o Governo não presta
Pedro S. Guerreiro
psg@mediafin.pt

A manchete de ontem do Jornal de Negócios deu que falar. É natural: uma redução de 23% na reforma dos que hoje têm cerca de 35 a 40 anos não é coisa pouca. O Governo desmentiu. O Jornal de Negócios mantém.

E como a coisa se passa no campo da matemática é sempre mais fácil berrar do que explicar para conseguir convencer.

O Jornal de Negócios prefere explicar. É o que faz de novo, hoje ainda com mais detalhe, para que o leitor tenha a informação que necessita para decidir. É, também, aquilo que o Governo não faz: não dá todos os dados aos jornalistas, aos deputados, aos parceiros sociais – aos portugueses. É uma opção. Mas não é a melhor opção. E dizer que é impossível prever dados para as próximas décadas é atenuante mas não é desculpa.

A reforma da Segurança Social ainda nem iniciou o processo legislativo mas o Governo já dá o figurino como quase definitivo. Por isso, é nesta altura já uma obrigação (política e moral) prestar toda a informação para que qualquer português possa perceber o que lhe vai suceder. Há uma razão para que o Jornal de Negócios simule o que acontece a quem se reforme em 2030 e não o faça para quem se reforme em 2033 ou em 2027: é que a parca informação que foi revelada só permite fazer o cálculo para 2030...

O secretário de Estado da Segurança Social, Pedro Marques, apressou-se a ir à RTP dizer que o Jornal de Negócios estava errado. E preferiu afirmar que as pensões de quem se reformar em 2030 vão é aumentar 35%. Com a verdade me enganas. Estes 35% são a comparação entre o que um pensionista médio recebe hoje e o que vai receber no futuro. Mas com mais anos de contribuições e outras expectativas salariais. A comparação que o Jornal de Negócios entende como pertinente é também outra: é entre o que um pensionista receberá em 2030, perante as novas regras, e o que receberia se as regras se mantivessem como estão agora (e portanto sem compensar com mais anos de trabalho): menos 23%.

A diferença entre os +35% e os -23% não é matemática. É de pressupostos. É de seriedade. Se é verdade que as pensões aumentam 35% com as novas regras, elas aumentariam quase o dobro se nada mudasse.

O Governo fez uma proposta para reformar a Segurança Social corajosa, até engenhosa, competente e que tem o mérito de produzir efeitos para além dos ciclos de vida políticos. Pela primeira vez, este ano as despesas vão ser superiores às receitas e é neste contexto que esta reforma se assume como inadiável. Mas não há como negar: ou se trabalha mais tempo ou se recebe menos na reforma. E não havia outro caminho - excepto pagar mais impostos.

Mas o mesmo Governo que quer ficar com os louros da grande reforma não deve esconder o custo que ela comporta. Este é um assunto delicadíssimo na vida das pessoas. Elas têm o direito de perceber o seu caso pessoal. E isso o Governo não dá. Quando muito, dá exemplos. Desmente pressupostos sem explicar os seus. Liberta informação parcelar, incompleta, insuficiente. E assim dificulta a discussão esclarecida. Mas o assunto é demasiadamente importante para que não coloquemos questões e façamos o nosso trabalho de casa.

O que interessa não é o desmentido do secretário de Estado ou o brio profissional deste jornal. É a informação esclarecida a que todos os pensionistas, actuais e futuros, têm direito. As contas do Jornal de Negócios prestam. As contas do Governo, Pedro Marques não presta.”

"As lições do Senhor cinco por cento"

Numa tirada que provém dos contrastes entre a sorte de uns e a desfortuna dos outros muitos, mesmo com tiques à americana!


Retirado do Jornal de Negócios de ontem
Luísa Bessa
"As lições do «Senhor cinco por cento»
lbessa@mediafin.pt


A nova vaga de filantropos americanos foi há semanas tema de capa da «The Economist» que associava a foto do fundador da Microsoft ao sugestivo título de «Billantrophy».
A Fundação Gates, reforçada pela contribuição de Warren Buffett, tem um património de 65 mil milhões de dólares para prosseguir a sua acção no apoio aos países pobres no desenvolvimento de vacinas para doenças como a malária ou a luta contra a SIDA.

Na América dos primeiros anos do século XXI, onde o número de milionários se multiplica de forma nunca vista, não se esquece a mensagem de «devolver à sociedade» a riqueza acumulada ao longo da vida. Os dois casos referidos são de excepção, quer pela dimensão da dádiva, quer pelo facto de um milionário (Buffet) prescindir da ligação do legado à eternização do próprio nome, algo que aparece geralmente associado à contribuição caritativa ou mecenática.

Portugal não tem uma tradição filantrópica ao mesmo nível. Poder-se-á dizer que nunca criámos grandes fortunas e que as condições sociais e económicas são diferentes. Mas é sobretudo uma questão cultural, de assumir a responsabilidade individual perante a sociedade e de ruptura da lógica do legado familiar. Argumentos que podem explicar que nos fiquemos sobretudo pela caridadezinha.

A grande excepção nos nossos dias foi a criação da Fundação Champalimaud, com que António Champalimaud surpreendeu os seus contemporâneos.

Mas a verdadeira excepção não é obra de um português e aconteceu, como disse ontem António Barreto, pelo «mais extraordinário golpe de sorte» da história de Portugal.
A Fundação Gulbenkian instalou-se em Portugal pelas vicissitudes dos últimos anos de vida de um arménio, nascido turco, que ficou conhecido pelo cognome de «Senhor cinco por cento», em referência à forma como multiplicou a já vasta fortuna de família com os contratos petrolíferos da sua Iraq Petroelum Company.
Além de saber ganhar dinheiro, Gulbenkian tinha uma outra paixão: gostava do que era belo e tinha os meios para reunir as obras de arte que lhe estimulavam os sentidos e o conhecimento.
Foi a sua colecção que esteve na origem da Fundação. Pela sorte de que fala Barreto, a dádiva de Calouste Gulbenkian está em Portugal há 50 anos e há 50 anos a contribuir para a mudança e a modernização do país.
Foi durante anos o Ministério da Cultura que Portugal não tinha. Criou organismos residentes (a Orquestra e o Ballet, cuja extinção no ano passado foi por certo a decisão mais traumática da existência recente), apoiou os artistas, abriu museus. Levou os livros onde não havia bibliotecas nem dinheiro para os comprar. Apoiou os investigadores dentro e fora de portas, criou o Instituto Gulbenkian de Ciência.
Soube prosseguir os seus fins em prol da ciência, da educação, da arte e da caridade nos anos do Estado Novo e em democracia, adaptando-se à mudança dos tempos e ultrapassando períodos de maior imobilismo.
Talvez a grande lição da Gulbenkian seja o seu carácter de independência e de exigência. Num país onde impera a dependência do Estado e um entediante culto da mediania, é estimulante ouvir as palavras de Gulbenkian, citadas por Rui Vilar: «Only the best is enough for me».
O «Senhor cinco por cento», que deixou uma fundação que chegou a representar mais de 2,5% do PIB português, continua a dar-nos lições."

Um "coice" no ... Jardim

De vez em quando ... convém dar um ar mais fresco à casa! ...
Ou como mais esta do Jumento pode ajudar a perceber muito melhor a verdadeira essência da necessidade de esclarecimento do fenómeno político-administrativo ( jurídico-constitucionalmente institucionaliozado) que é a descentralização, na complexidade de todas aquelas suas vertentes (e que a jusante terão, também, as suas implicações estritamente socilógicas ou, por outras palavras, as suas consequências em termos de justiça social).
"AS CONTAS QUE AINDA NÃO FORAM FEITAS
Agora que o Alberto anda para aí a mandar bananas para o ar porque deixou de ter o poder da chantagem na AR, uma das maiores vantagens da maioria absoluta de Sócrates, talvez seja a ocasião para que se façam algumas contas que ainda não foram feitas. Receio que ao longo de anos e graças a uma classe política que não dorme a pensar em votos e em poder se tenham criado distorções na distribuição dos investimentos do Estado, dando lugar a muitas injustiças que vão muito para além das habitualmente referidas, a insularidade dos Açores e do território libertado pelo Alberto e a dicotomia entre o litoral e o interior.

Gostaria, por exemplo, de comparar os investimentos públicos realizados na Madeira e os feitos em Trás-os-Montes, o Algarve ou o Baixo Alentejo. E mesmo nessas regiões gostaria de comparar o que se investe nas cidades e o que se investe longe das capitais de distrito.

Seria interessante compararmos os rendimentos de uma exploração do Minho com as dos agricultores que se têm vindo a manifestar em Lisboa, e qual a parte desses rendimentos que correspondem a subsídios estatais.

Saber quem, de uma forma directa ou indirecta, mais beneficia das scuts, para aferir se o pagamento destas auto-estradas beneficia todas as populações do interior ou apenas os mais privilegiados das regiões que beneficiam desse regime. Também faria sentido avaliar o impacto económico do investimento que se faz em scuts para o comparar com o que resultaria de outras soluções que visem o desenvolvimento das regiões.

Seria útil para a compreensão do nosso sistema político conhecer a geografia política dos investimentos públicos, para percebermos se existem regiões abandonadas pelo Estado só porque não estão representadas nos aparelhos dos partidos no poder.

Poderei estar muito enganado, mas se um dia se fizerem estas e outras contas vamos perceber melhor porque razão este país não passa da cepa torta."