segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Apocalyptalismo

"Contra o fascismo e a guerra colonial! Abaixo o capitalismo!"
Vi, de uma assentada, o "Apocalypto" de Mel Gibson! Aquilo é mesmo selvagem, selvático e impróprio para a consciência civilizacional das mentes 'modernas', acomodadas ao fast food e ao pronto a consummir, por todo o lado (aliás nada de novo, Deus é o primeiro acto natural de globalização, pois "está em todo o lado e é imenso"!...).
No mesmo dia recebo mais um mail deste Pedrito do J Negócios, sobre a que obriga, politicamente, a ambição da já bolorenta selvajaria capitaleira, agora com sede in em Bruxelas, mais global que o aquecimento da Terra.
E eu que, noutros tempos que muitos ainda lembram, também gritei "abaixo o capitalismo", ainda não fazia ideia da massissa ingenuidade e, por isso talvez, também, da grande injustiça histórica que representava a contestação, se a tivermos em linha de comparação com o nosso comodismo e, até, com a nossa cobardia de hoje, perante os tais factos da ganância a que se reporta mais uma das tiradas deste "menino" terrível do JN:

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O pesadelo Trichet
Pedro Santos Guerreiro

Não é apenas o Zeca e o Cajó que aprenderam quem é o senhor Trichet. Os operários da Sociedade Anónima que todos os dias visitamos na página 2 do Jornal de Negócios comentam assiduamente o que faz o presidente do Banco Central Europeu, falam sobre Euribor, “spreads” e volatilidade porque lhes toca no bolso.

Como eles próprios diziam há uns meses, os seus pesadelos já são povoados com lobos, são assombrados pelo senhor Trichet. O tal que com aquele ar de menino rabino manda na política monetária e cambial da Europa; que decide se as taxas de juro sobem ou descem. Há dois que sobem.

Os primeiros-ministros gostam do BCE para terem um bode expiatório quanto aos juros. Sobem? A culpa é de Trichet... Mas não gostam de não mandar na política monetária e cambial; de termos um euro tão forte que prejudique as empresas europeias nas exportações, ante uma economia americana montada num dólar competitivamente desvalorizado.

A ameaça de rebelião veio da França: primeiro a candidata Ségolène, agora o primeiro-ministro Sarkozy contestam a independência sem escrutínio do BCE. Numa carta ao Governo português, Trichet responde ao 8 com o 80: o BCE é tão independente que quer excluir-se da lista de instituições europeias, profilacticamente, para não correr sequer o risco de vir a ter tutela do Conselho Europeu.

Este mesmo presidente que dá gritos do Ipiranga decidiu ontem obrigar o Tozé, o Joca e todos os que têm créditos à habitação a aprender mais palavras. Como “injecção de liquidez” ou “subprime”. E assim Trichet mexeu-lhe no bolso e na Bolsa.

Está tudo explicado a páginas 16 e 17 da edição de hoje do Jornal de Negócios. Em três penadas: nos EUA, o mercado de crédito à habitação de maior risco de incumprimento (o “subprime”) está a colapsar, com muitos devedores a deixarem de pagar prestações; no sofisticado mercado americano, muitos bancos vendem esses créditos de alto risco a outras instituições e fundos (em titularizações); os fundos que investiram nessas dívidas estão a cair ou mesmo a falir; os riscos estavam portanto a ser mal medidos e os juros aumentaram; pela primeira vez em muitos anos, começou a faltar dinheiro (liquidez) para operações. O que fez ontem o BCE? Deitou um balde de água em todo este calor, garantindo a qualquer banco financiamento (injectou liquidez, acalmou mercados).

Os optimistas dizem que isto é um processo de ajustamento normal. As economias estão saudáveis e as empresas sólidas. Os pessimistas olham para o mercado de crédito à habitação americano e receiam queda parecida na Europa. Não é possível, porque o conceito de “subprime” só existe nos EUA e Reino Unido. E o malparado na Europa está relativamente baixo. Ainda.

Em Portugal, esse nível é baixo mas crescente. Os aflitos amontoam-se às portas da Deco, que não pode senão recomendar a renegociação de contratos, para baixar “spread”, o que é ajuizado, e alargar prazos, o que é uma ilusão: quanto mais tempo se deve, menos capital se amortiza ao mês, maior volume de juros se paga.

O Zeca e o Cajó não gostam do senhor Trichet. Mas por mais repelente que isto lhes soe, o senhor gosta deles. E dos filhos deles.